Veredas
Música e tradição popular no Brasil
Quebra-Coco: Zé Neguinho e outros cocos
Mário de Andrade é, sem sombra de dúvida, um dos grandes inspiradores para esta série das Veredas. Do montante de material compilado pelo autor de Macunaíma, dois segmentos me chamam a atenção (aqui): Os Cocos, documentação reunida especialmente a partir de sua viagem ao Nordeste na passagem de 1928 para 1929. E os diários do Turista Aprendiz que retratam o dia-a-dia em campo desta mesma viagem. O primeiro me interessa pelo valor “científico”, pela documentação em si e pela organização do livro, com partituras separadas tematicamente. O segundo pelo calor da escrita em campo, pelas descrições dos personagens e situações - “Por aqui chamam de coqueiro o cantador de cocos. Não se trata de vegetal não. Se trata do homem mais cantador desse mundo: o nordestino”, diz o diário.
Em busca do cantador (real), no ano 2001, em pleno Festival de Inverno de Garanhuns, Pernambuco, travo contato com uma das figuras mais interessantes que já conheci: Zé Neguinho do Coco, do Recife, mestre e estilista do gênero. Conhecia sua voz de uma participação no primeiro álbum da banda Cascabulho. Num teatro vazio, tive a chance de gravar com o “seresteiro do coco moderno” uma entrevista contundente, além de alguns cocos (feitos no calor da hora) de extrema delicadeza na interpretação – sua marca registrada. Até então, Zé Neguinho não tinha gravado disco. “O coco é uma brincadeira que o povo nordestino sempre acompanhou e não foi nascida em outro lugar, no estrangeiro. É uma brincadeira nordestina, do norte”, explica o mestre.
Sem dúvida, Zé Neguinho é herdeiro direto dos velhos coquistas registrados por Mário de Andrade. Daqueles que vivem para cantar: “É um prazer que eu sinto. Ali [no coco] eu não choro, ali eu não me embriago, ali eu não censuro ninguém e ninguém me censura. Eu mato as minhas vontades, as minhas paixões. É mostrar música, trabalhar com música”.

Zé Neguinho do Coco inspirou esta audição criada em 2004 a partir de Câmara Cascudo, Luís Heitor, Alceu Maynard, além de gravações no quilombo do Castainho (PE) e uma compilação discográfica dos cocos. Talvez o caráter experimental desta edição tenha chamado a atenção do júri da VI Bienal Internacional de Rádio do México, que em 2006, veio a premiar este quebra-coco com o terceiro lugar na categoria programas musicais.
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