Veredas
Música e tradição popular no Brasil
Pacote Carnaval no Recife
Maracatu Estrela Brilhante
O Trovão Azul do Recife
O casal real abre o cortejo. Um grande chapéu de sol colorido faz as vezes de Pálio para os soberanos, rodando sem parar. A corte é integrada por príncipes, princesas, damas de honra, condes e baianas. Sem falar na dama do passo, que traz nas mãos a calunga, boneca fetiche, representação espirutual.
Maracatu é representante máximo dos antigos cortejos coreográficos colonias. Rei e Rainha conservam a tradição dos reis negros titulares, eleitos e coroados virtualmente pela comunidade, o que Mário de Andrade denominou “reisinhos de fumaça”.
Walter de França, mestre do Estrela Brilhante, instruiu gerações de percussionistas. À frente do maracatu desde a década de 90, costuma “manter a originalidade dos tambores e dos lamentos”. Com ele, a música de cortejo recebeu novos sotaques, ganhou “toadas de avenida” e “toadas de palco”.
Nesta edição, datada de 2001/2002 por ocasião do primeiro álbum do Estrela, mestre Walter, a rainha dona Marivalda, o rei seu Valdir, entre outros membros da corte do Alto José do Pinho, revelam os segredos do maracatu.
Recife, carnaval que passa
Documentário “sem-pausa” gravado nas ruas da capital
A convite da Fundação de Cultura do Recife, entre os dias 28 de fevereiro e 04 de março de 2003, percorri quase que aleatoriamente as ruas da capital pernambucana com um gravador DAT e um microfone estéreo. Com a colaboração de Teresa Benassi, minha amiga pernambucana, registrei cerca de 12 horas de material (a maior parte ainda inédita, a ser mostrada em programas futuros).
Aqui está um documentário editado no carnaval seguinte (2004) que se propõe a transportar o ouvinte para o grande palco a céu aberto que é o centro do Recife. Programa montado basicamente em corte seco, sem interferências de locução, é composto por cenas do carnaval. Dos clarins que regulam a folia ao Galo da Madrugada, apontado pelo Livro dos Recordes como o maior bloco do mundo.
O frevo, o maracatu e o próprio Galo, hoje são considerados patrimônio imaterial de Pernambuco. Na ocasião do programa, Veredas propunha que se “tombasse” o próprio carnaval “multicultural”, que transforma o Recife numa das cidades mais democráticas do Brasil. Como lembraria o etnomusicólogo norte-americano John Murph, durante o carnaval, Recife se transforma em New Orleans, com suas bandas que passam.
Espontâneo e lírico, o carnaval do Recife é original: “Teve África que só deu aqui”, diz Naná Vasconcelos em entrevista, destacando a “variedade de miscigenação cultural”.
Do frevo aos maracatus que pesam uma tonelada, do urso ao caboclinho, carnaval em Pernambuco é experiência definitiva.
Centenário frevo
Corrente eletrizante, multidão ondulando
O imaginário de toda uma cidade pode se resumir num único passo.
(Ou em suas mais de 200 variações).
Frevo é a grande alucinação do carnaval pernambucano.
A 22 de fevereiro de 1909, o “Jornal Pequeno”, do Recife, publica uma ilustração que fica para a história: a população agitada em torno de mais um carnaval. Na legenda: “Olha o frevo!”.
Os primeiros blocos carnavalescos do Recife se dividiam entre os clubes de alegoria e crítica, ligados à elite intelectual e econômica pernambucana. No final do século 19, aparecem os primeiros Clubes Carnavalescos Pedestres, como o Clube dos Caiadores, que saía pintando os muros da cidade. Integrados pelas camadas pobres da sociedade, esses blocos, faziam alusão à classe trabalhadora (Clube dos Lenhadores, Clube das Pás, Empalhadores do Feitosa, Vassourinhas). Já os passos do frevo, ainda hoje levam os sugestivos nomes ligados ao mundo do trabalho: tesoura, parafuso, ferrolho, dobradiça, locomotiva.
A história do frevo na indústria fonográfica começa em 1922 com a gravação de “Borboleta não é ave”, frevo-canção de Nelson Ferreira e J. Borges.
Câmara Cascudo dizia que a primeira característica do frevo não é ser uma dança coletiva, um cordão ou um cortejo. Mas a multidão mesma, a que se junta todos os que ouvem, como uma corrente eletrizante.
Ficamos por aqui, com a definição de mestre Cascudo: frevo é multidão ondulando.
“Olha o frevo!”
[ ] Programa apresentado no dia 15 de fevereiro de 2010.
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