Veredas
Música e tradição popular no Brasil
O canto dos libertos
“A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte... É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do norte”.
Joaquim Nabuco é citado por Caetano em Noites do Norte (2000) em suas doces palavras de lágrimas sem amargor. Pensador abolicionista pernambucano, um aristocrático Nabuco chegou a defender a pequena propriedade e a liberdade dos homens pobres, comprometido com o destino dos filhos da terra. Diplomata, foi um dos articuladores internacionais para a abolição da escravatura brasileira em busca do exercício de plena cidadania.
Salve a Princesa Isabel, mais que beleza
Nego comia no cocho, agora come na mesa
Dona Isabel Cristina Leopoldina Augusta Miguela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon, a Princesa Isabel, “santa” Isabel: ao lado de Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia e Nossa Senhora Aparecida, a Defensora Perpétua do Brasil é venerada entre os batuqueiros, congadeiros, jongueiros e demais quilombolas em pleno século 21. Para os que jamais ouviram falar em Nabuco, a “Moça Branca” é a “Redentora”.
Apesar do 20 de novembro ter sido instituído como data oficial para a celebração da resistência do negro, o 13 de maio, desde 1888, sempre foi a festa da libertação. É ocasião para o congraçamento de Irmandades Negras.
Nesta audição, gravações realizadas entre a Irmandade do Rosário de Justinópolis, a comunidade de Mato do Tição, o batuque de Capivari, além de um registro histórico junto aos descendentes dos ex-escravos brasileiros que retornaram à África (Benin). Data tão festiva não estaria completa sem as vozes das majestades Clementina e Geraldo Filme.
Caetano relê a festa em sua natal terra da purificação: “Dia 13 de maio em Santo Amaro / Na Praça do Mercado / Os pretos celebravam / (Talvez hoje inda o façam / O fim da escravidão / Da escravidão / O fim da escravidão / Tanta pindoba! / Lembro do aluá / Lembro da maniçoba / Foguetes no ar / Pra saudar Isabel / Ô Isabé / Pra saudar Isabé”.
Salve 13 de maio! Salve a verve poética e os tambores da resistência!
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O canto dos libertos
Edição originalmente apresentada na RCB no dia 10 de maio de 2010
Roteiro, produção e apresentação: Julio de Paula
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