Veredas
Música e tradição popular no Brasil
Ilê Omolu Oxum: candomblé de sangue
Em 2004, o Museu Nacional do Rio de Janeiro lança sua coleção Documentos sonoros com o álbum Ilê Olomu Oxum, que conta com a participação dos filhos e filhas dessa casa de candomblé da baixada fluminense. Veredas é o programa escolhido para divulgar o disco no rádio. A convite dos antropólogos Edmundo Pereira e Gustavo Pacheco, a equipe do programa ruma a São João de Meriti para uma aula de candomblé (e de vida dedicada ao santo) com Mãe Meninazinha d´Oxum.
“Oxum é minha mãe, aquela beleza, a minha mãe, é a deusa da água doce, da bondade, minha mãe é a deusa da bondade. Tudo isso vem dizendo nas cantigas. [O canto] está dizendo que ela é mãe da bondade. Tudo isso são alguns significados que eu posso lhe dar”, diz a Ialorixá.
Conforme informa o texto de apresentação do álbum, assinado pelos antropólogos, a presença da música é constante no candomblé, assim como em todas as religiões de origem africana. Em cerimônias públicas ou privadas, a relação com os orixiás se estabelece por meio de um imenso repertório de rezas e cantigas. Canta-se nos rituais de iniciação, canta-se para o preparo das oferendas, para que as divindades dancem, para abrir os caminhos, para pedir e agradecer.
A casa Ilê Omolu Oxum, data de 6 de julho de 1968 e está assentada com bases no axé da avó carnal de Mãe Meninazinha, cujas raízes remontam à alta linhagem do candomblé da Bahia. “Eu faço a mediação através dos búzios, converso com os orixás através dos búzios. E não só isso. Nós chegamos no quarto, no espaço sagrado, porque tudo isso aqui é espaço sagrado, mas tem lá o quartinho dele, a gente se ajoelha, se posta aos pés do Orixá, pra pedir por nós todos, pra pedir pelo mundo, pra pedir a PAZ mundial”, explica a Ialorixá .
“Muitas vezes, na casa de amigos da minha avó, e lá em Mesquita mesmo, onde eu me iniciei, para tocar o candomblé, eles tinham que ligar um rádio na frente da casa pra despistar”, lembra Mãe Meninazinha. “Era tudo escondido, era perseguido pela polícia, era perseguido pela Igreja. E hoje o candomblé está conseguindo chegar ao seu lugar de destaque, seu lugar verdadeiro na sociedade, sendo respeitado. Ainda existe o preconceito, o racismo, mas graças a Deus e a Olorum e a Orixá Bobô, estamos conseguindo chegar no lugar que o candomblé merece, no lugar de respeito. Nós agradecemos aos nossos ancestrais, porque eles que deixaram isso pra gente. Lutaram, apanharam, foram muito humilhados, para que nós chegássemos até aqui”.
Daquela tarde do 12 de novembro de 2004, no Ilê Omolu e Oxum, fica a lembrança de um dia sereno e agradável. A lembrança de uma religião de braços abertos e uma sacerdotisa do bem.
A benção aos Orixás!
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