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  • O punk de meia-idade da Banda Eddie

    Alceu Maynard | 26.07.2010

    O inconformismo nas letras talvez explique o título do quarto álbum da banda pernambucana Eddie. Carnaval no inferno carrega as influências dos 20 anos da banda, com elementos da música brasileira e alguns conceitos do punk-rock, resultando em um punk de meia-idade, como definiu o guitarrista e vocalista Fábio Trummer. A faixa “Desequilíbrio”, como caco vidro expõe a fratura, revelando contradições e os desequilíbrios de um “Bairro novo / Casa caiada” onde "Quase não sobra nada".

    Gravado com recursos próprios nas cidades de São Paulo e Recife, Carnaval no inferno é fruto do esforço e gerenciamento da banda. “Nós somos funcionários da música. Tem que se auto-administrar; é como uma empresa, em que parte do que entra, a gente investe, e outra parte, a gente recebe. Desde o início a gente sempre pôs a mão na massa, botando tijolo em cima de tijolo”, explica Trummer durante a participação da banda no programa RadarCultura em abril de 2010.

    Com alicerces fortes, estes “artistas-pedreiros” ajudaram a construir a cena mangue beat. “No final dos anos 80, início dos 90, queriam acabar com a cultura brasileira. E São Paulo é um lugar onde isso acontece muito. Em São Paulo a cultura é totalmente norte-americana, quando não inglesa. A língua inglesa dominou tudo. Hoje, as pessoas mais informadas, aquelas que têm acesso à educação e à informação, têm uma cegueira terrível para as coisas brasileiras. Qualquer coisa mal feita, qualquer ponto mal dado da cultura americana, é conhecida e reconhecida. (...) Mas durante os anos 80/90, talvez Recife tenha sido a primeira cidade a lutar novamente pela cultura nacional. O cinema e a música foram que melhor sintetizaram, mas as artes plásticas e a fotografia também reagiram. O (ex-presidente) Collor de Mello quase acaba com a cultura nacional. A gente dizia: 'Já que a gente não vai conseguir ser americano, nem inglês, e nem queremos isso, vamos transformar a nossa cidade em um lugar bacana para viver'.”
     

    • Nos anos 80 tentaram acabar com a cultura nacional - Eddie


    O movimento, além de revelar bandas como Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre S/A e  Mestre Ambrósio, agitou em Recife outras formas de expressão culturais como o cinema, a moda e as artes plásticas.

    Perguntado se a indústria fonográfica teria criado supostas regras para determinar o que era mangue beat, Fábio Trummer respondeu: “ A indústria (fonográfica) empacota a diversidade sonora das bandas para facilitar a criação de um rótulo. Até hoje isso é muito utilizado. E Recife atrapalhou muito gente, porque em uma hora em que só se falava em mangue beat, as pessoas que não necessariamente tinha aqueles elementos que a imprensa denominava como mangue beat, ficavam com crise de consciência ou tentavam fugir da sua personalidade para tentar se enquadrar no mangue beat, ou desistia. Muita gente talentosa desistiu. Mais atrapalhou que ajudou, mas não dá pra falar que não ajudou. Se você tinha algum elemento para as pessoas te enquadrar como mangue beat, você caia em uma vitrine, mesmo sem querer. Isso foi bom e foi ruim. Mas o mangue beat tem como conceito a diversidade. Então, limitar, achando que é isso ou aquilo, já foge do conceito do mangue beat.”. (...) “É como se toda banda tivesse que botar alfaia para ser mangue beat”, completa o percussionista Alexandre Urêia.

    Confira a entrevista completa e ainda as versões ao vivo  e exclusivas do RadarCultura de "Lealdade" (Jorge Castro e Wilson Batista), "Pode me chamar" (Fábio Trummer) e "O baile Betinha" (Erasto Vasconcelos).
     

    • O baile Betinha - Eddie (ao vivo)


     

     

    EXIBIÇÃO 09.04.2010, 15:00

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