O carnaval da imaginação
Ele já foi chamado de cientista musical. Experimentalismo e teatralidade acompanharam o trabalho do cantor e compositor Mauricio Pereira que, nos anos 1980 e ao lado de André Abujamra, formou a banda Os Mulheres Negras. O duo colocou na praça dois discos: Música e ciência (1988) e Música serve pra isso (1990).
Após o fim dos Mulheres Negras, Mauricio lançou cinco discos-solo: Na tradição (1995), Mergulhar na surpresa (1998), Canções que um dia você já assobiou – vol. 1 (2003), Pra Marte (2007) e Carnaval Turbilhão (2010).
Como um LP, Mauricio Pereira se divide em dois lados, o lado A e o lado B. O lado B fica por conta de seus trabalhos autorais em que aprofunda e amadurece o lirismo de suas letras.
Junto ao grupo Turbilhão de Ritmos, o músico graduado em Jornalismo se mostra um cantor de lado A, reverenciando a canção popular e de rádio em Canções que um dia você já assobiou – vol. 1, ou em seu animado “baile de bolso”, o recém-lançado Carnaval Turbilhão, no qual engata clássicas marchinhas de carnaval.
Carnaval Turbilhão
O disco é o registro em estúdio de um trabalho que Mauricio e o grupo já apresentavam há alguns anos. No repertório, músicas de autores como Chiquinha Gonzaga ("Abre alas"), Lamartine Babo ("Linda morena", "O teu cabelo não nega"), Braguinha ("Chiquita Bacana", "Touradas em Madri"), Noel Rosa ("Pierrô apaixonado"), Mario Lago ("Aurora"), Haroldo Lobo ("Alá-lá-ô")
“A gente se conheceu no Fanzine (programa diário da TV Cultura, entre 1992 e 1994, em que Mauricio e parte do Turbilhão formavam a banda de palco). É uma banda que tem pegada rock and roll, mesmo no carnaval. Os arranjos são um apanhado das memórias dos músicos. Eu falei: 'Vocês são paulistanos. Então, desçam a mão, honrem a cidade que vocês moram, porque aqui a gente tem que falar alto. Com esse barulho, se não falar alto, ninguém escuta'”, comentou em entrevista ao RadarCultura.
A música não para em momento algum, como em um show em que os músicos se empolgam e chegam a aumentar o andamento nas últimas faixas. É um disco para por na vitrola e promover um baile em casa, mesmo não sendo um grande folião, como o próprio cantor. “Eu particularmente gosto das marchinhas. Depois que acabou esse tipo de baile, eu sempre sumia de São Paulo no carnaval; ia para algum mato, acho que não ouvia nem música. Então, a imagem que tenho de carnaval sou eu no clube da Vila Clementina em uma matinê, vestido de cowboy, com a boca cheia de confete empoeirado e uma pequena orquestra. Carnaval, bem simples assim”.
Simples e sem nostalgia, este CD remete o ouvinte a outro mundo - ingênuo - diferente do atual cercado de trios elétricos.
“Antigamente era um mundo mais simples. O que torna o mundo mais grosseiro no século XXI? É o excesso de explicação! Tudo que você sente que é tem uma foto, um vídeo e 15 coisas no YouTube. Antigamente você tinha que intuir mais as coisas. Você podia ser mais misterioso quando “detonava” algo ou alguém. Em outras palavras, você era obrigado a ser mais inteligente. Hoje em dia você pode ser mais burro porque a tecnologia te ajuda. Você pode pilotar um avião se você souber mexer no computador e mesmo que você não entenda nada de planar."
Para Maurício, a imaginação é a raiz destas marchas de carnaval, e grandes autores tem o talento para sofisticarem com leveza as canções; afinal, a imaginação faz parte da natureza infantil.
“Para os ouvintes do RadarCultura indico um desenho do Bob Esponja, em que o Lula Molusco compra uma TV de plasma gigante e joga a caixa fora. Ele não deixa o Bob Esponja e o seu amigo Patrick assistirem sua televisão. Aí, o Bob Esponja pega aquela caixa da televisão, entra nela com o Patrick e se divertem loucamente. O Lula Molusco com a televisão não se diverte, só se entedia, e pela janela vê os dois se divertindo dentro da caixa de papelão. Ele fica muito bravo, e vai ver o que está acontecendo dentro desta caixa que é tão divertido e que a televisão não dá. Daí, o Bob Esponja se levanta e diz: 'Imaginação!'.”
- Mauricio Pereira: carnaval da imaginação - RadarCultura
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