“Fazer música é sonhar acordado”, afirma Otto
2009 foi um ano iluminado para a música brasileira. Artistas consagrados novamente nos surpreenderam sem nostalgia e os mais novos viraram a MPB de ponta-cabeça.
Uma das agradáveis surpresas ficou por conta do pernambucano Otto. Com mais de 20 anos de carreira, Otto surgiu com um dos movimentos mais representativos da música brasileira: o mague beat. Ainda como percussionista, tocou com a Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, quando saiu dos fundos dos palcos para gravar Samba pra burro em 1998.
Após seis anos sem um novo trabalho, em 2009, Otto fez o melhor álbum de sua carreira, Certa manhã acordei de sonhos intranquilos: “A única coisa que eu quero é fazer música boa, é respeitar a MPB, é respeitar o meu país. Eu falo para o pai, para o jovem, para o velho, para a criança; eu não podia ficar afastado tanto (tempo)!”.
O disco foi produzido pelo cantor em parceria com Pupillo, baterista da Nação Zumbi, e teve a participação de velhos amigos, como Fernando Catatau (Cidadão Instigado) e Lirinha (Cordel do Fogo Encantado): “A gente está junto porque a gente não pode se largar, um precisa do outro, ninguém tem pai rico; é o mesmo perfil, a gente veio do subúrbio de Recife. Fred Zero Quatro falava 'A Mundo Livre é subúrbio do subúrbio do Brasil, então somos maloqueiros, precisamos um dos outros e temos muito o que dar...'. Estou a muito tempo com esses caras e nunca tive uma briga, nunca ouvi alguém dizer que está tocando errado. Eu não sei o que é erro em música. Ninguém erra! O erro pra mim é sempre um acerto”.
Com uma separação conjugal e as mortes de sua mãe e de sua afilhada pequena, letras como "Crua", "6 minutos" e "Filha" se transformam em um “porre” de sentimentos, doloridos e confessionais: “Às vezes temos que saber conviver com a tristeza, com a perda, e não deixar de fazer festa (referindo-se a letra de "Filha"). Um dos exemplos foi quando perdi a minha mãe numa sexta-feira, 13 de novembro, e tive de fazer um show depois... Qualquer um pode estar passando por isso e não pode deixar de fazer qualquer coisa em sua vida... O meu maior papel é pegar essas coisas duras e botar um açúcar pra descer melhor. Este é o papel do artista”, conta Otto.
Outras faixas, como “Janaína”, mostram a devoção do cantor por Iemanjá, além das belas participações femininas - a cantora Céu em "O leite" e da cantora mexicana Julieta Venegas em "Saudade" e "Lágrimas negras". Outra regravação do CD: "Naquela mesa", de Sérgio Bittencourt (que fala sobre o pai, Jacob do Bandolim). “Ser artista é ser dadivoso, é saber partilhar, aprender a ver que tem uma coisa mais além, que tem alguém que daqui a 20, 30 anos vai olhar para minha música, como eu olhei para Cartola, Pixinguinha. Quando olhei para Luiz Gonzaga, é a continuação, a continuação do contemporâneo.”
Ouvir cada faixa de Certa manhã acordei de sonhos intranquilos faz valer os seis anos de espera.
[ ] Programa apresentado no dia 13 de janeiro de 2010.
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