Emicida e Mamelo Sound System
Dois nomes da talentosa nova geração do hip hop paulistano se encontraram no RadarCultura. A entrevista foi realizada durante a semana em que acontecia a terceira edição da Campus Party no Brasil. Em pauta, o trabalho individual de E.M.I.C.I.D.A. e do grupo Mamelo Sound System e suas experiências bem-sucedidas com a internet.
Leandro Roque de Oliveira, o E.M.I.C.I.D.A, com apenas 24 anos é considerado uma das maiores revelações do hip hop do Brasil nos últimos anos. Vindo da periferia (nasceu no Jardim Fontalis, zona norte de São Paulo), é quase imbatível nas batalhas de freestyle - competições em que rappers se desafiam por meio de improvisos. Não esconde sua admiração pelo discurso de Mano Brown, líder do grupo Racionais MC’s , porém, foi com a desenvoltura e criatividade dos repentistas que se inspirou a estas batalhas e também para o seu próprio trabalho.
“A maneira como eles falam (os repentistas), a variedade de métrica que é o que a gente tem aqui, um monte de tipo de flow (ritmo lirical) diferente, acho que a gente tem muito disso no rap. Até brinquei falando que eu acho que um gringo veio pra cá, viu um repente e foi pra lá (exterior) inventar o rap."
Em 2007, EMICIDA teve a oportunidade de participar de um encontro em Campina Grande na Paraíba intitulado Rap-Repente, e ficou surpreso ao ser convidado para cantar em parceria com o repentista Oliveira de Panelas, artista que o rapper lia sobre mas acreditava que já era falecido: “Foi neste encontro que eu vi outra ligação entre o rap e o repente, a descriminação, tem muita gente que torce o nariz para ele (o repente) como se fosse um gênero menor do que os outros, então são irmãos gêmeos, quase siameses”.
Para os menos habituados ao hip hop fica pouco perceptível o diálogo com outros gêneros da música popular brasileira, mas Emicida cria rimas mais elaboradas e samplers muitas vezes carregados de lirismo como em "Pra não ter tempo ruim", a base cantada por Mariana Timbó é parte da letra de "Suíte do pescador", de Dorival Caymmi: “O hip hop bebe de outras fontes, cada um tem uma bagagem especial, vem do que você ouve durante sua infância, das coisas que você passou a pesquisar... Eu escutei muito samba, muita coisa de MPB, eu tenho muito lance do Caetano, Gilberto Gil, Jorge Ben, que talvez nem seja tão aparente em minha música, mas pra mim de alguma forma eles estão ali. Todos nós bebemos de outras fontes e voltamos para fazer um rap maior ainda”.
Conceitos também bastante defendidos pelo pessoal do grupo Mamelo Sound System que está prestes a comemorar 10 anos de carreira.
Formado por Lurdez da Luz, Tiago Munhoz e Rodrigo Brandão, o grupo já tem quatro discos lançados de forma independente e inclui parcerias com Naná Vasconcelos, Nação Zumbi, J.T. Meirelles, Mundo Livre S/A, entre outros: “Tudo quanto é tipo de balanço, funk, soul, jazz, reggae, no final das contas a espinha dorsal é o batuque, é o batuque africano... E, hoje em dia, se eu conheço muito tipo de música, sou viciado em vinil, e o motivo de eu conhecer e gostar deste tipo de música foi por causa do hip hop, foi por causa de sample, de você perguntar de onde veio essa levada de onde veio som”.
Juntos, Mamelo Sound System e EMICIDA colecionam ótimos acessos pela internet tendo fãs em todo país e até mesmo no exterior. Mamelo Sound contabiliziou milhares de downloads e EMICIDA tem mais de 1,5 milhão de acessos no YouTube com videoclipe “Triunfo”, que rendeu indicações ao Video Music Brazil 2009 (VMB) "Melhor Grupo/Artista de Rap", "Aposta MTV" e "Videoclipe do Ano".
Mesmo com grande visibilidade na internet e destaques alguns veículos de comunicação, EMICIDA define como bizarra sua popularidade: “Tem gente que acredita que eu sou Michael Jackson, e tem gente que nunca ouviu falar de mim. Então eu entro no metrô e tem um cara que infarta, e daí eu fico com vergonha porque o resto do povo não me conhece”.
Acostumados a ideologia do “faça você mesmo”, esta nova geração ainda encontra tempo para projetos paralelos, como o site Noiz, que aborda a cultura urbana e temas referentes hip hop e que foi realizado com incentivos da Prefeitura Municipal de São Paulo.
Gerenciar integralmente suas carreiras, trabalhar de forma independente já não é mais desafio para eles que já conhecem suas limitações e sabem onde querem chegar: “Vale mais a pena seguir a passos de formiga e ficar com uma longa estrada a andar de turbo um mês e depois ter que descer e empurrar”, afirma Rodrigo Brandão da MSS.
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João Goitacá
Esse programa está o máximo! Eu achava que a Rádio Cultura só tinha espaço pra música brasileira dos anos 70 pra trás. Fico muito contente em descobrir que existe espaço pra diversidades na Cultura. Resumindo em uma só palavra: Parabéns!