Ednardo, três décadas da Massafeira Livre
“Foram quatro dias maravilhosos, um desfile de pessoas de todas as áreas e tendências... Tinha uma parte dedicada a literatura, poesia, cinema, enfim, todas as manifestações possíveis e imagináveis.” Assim Ednardo, cantor e compositor, resume o antológico festival Massafeira, trinta e dois anos depois.
Organizado pelo artista cearense, o livro “Massafeira 30 anos – Som, imagem, movimento, gente” reúne textos de diversos autores, como Calé Alencar, Rosemberg Cariry, Brandão, Mona Gadelha, Ruy Vasconcelos, e muitas imagens inéditas em fotos registradas por Gentil Barreira durante o encontro. Naquele março de 1979, o Teatro José de Alencar, em Fortaleza, recebeu mais de 400 jovens com suas diferentes manifestações artísticas; porém, a música teve um destaque especial, o movimento gerou um disco duplo no ano seguinte, remasterizado recentemente. Além dos novos artistas, o evento também reuniu o pessoal da tradição cultural, como os Irmãos Aniceto, Cego Oliveira, Dona Ciça do Barro Cru e Patativa do Assaré.

Enaltecendo a determinação de todos os envolvidos na Massafeira, Ednardo comentou a falta de espaço para artistas locais e o costume de apenas consumir a produção cultural do eixo Rio-São Paulo na Fortaleza daquele tempo. Os discos eram feitos na região sudeste, sede das grandes gravadoras, e os principais programas de TV e rádio eram retransmitidos no Nordeste. “Foi uma coisa corajosa de todos nós, porque cada pessoa contribui com tudo, com desenhos, ideias, enfim, organizando. Foi feito tudo por nós; não tinha uma pessoa se quer dos meios de comunicação e das gravadoras,” arremata o cantor.
A movimentação e o engajamento dos artistas despertaram a atenção da ditadura que, com seu aparelho repressivo, fez diversas tentativas de frear a Massafeira Livre, desde silenciar jornais até infiltrar agentes nas reuniões dos artistas, queimar equipamentos e prender alguns envolvidos no evento. “Invadiram minha casa quando eu estava tentando liberar os discos da Massafeira; a minha filha tinha cinco anos de idade, minha mulher estava grávida do segundo filho. Trancaram as duas na cozinha e quebram a casa toda”, lembrou Ednardo.
- Ednardo - E a quitinete no Rio de Janeiro
Ednardo apareceu na música brasileira em 1970 ao vencer o Festival Nordestino da Música Brasileira, promovido pelos Diários e Rádios Associados – TV Tupi. Mas, sua relação com a música começou na adolescência, aos 12 anos, compondo instrumentais ao piano. Aos 18, com o movimento estudantil, arriscou algumas letras, enquanto cursava engenharia química na Universidade Federal do Ceará. Entre diversas histórias de sua carreira, Ednardo contou ao RadarCultura que trabalhou em uma fábrica da Petrobras, em Fortaleza, até que um dia a música falou mais alto e o jovem artista caiu na estrada. “Eu tinha um fusquinha nessa época. Juntei uma mala com algumas roupas, o violão, um bocado de letras e me mandei para o Rio de Janeiro,” lembrou o cantor que na Cidade Maravilhosa dividiu uma quitinete com outros conterrâneos. “A gente dormia no corredor da quitinete; outros, pra poderem respirar melhor, abriam a porta que dava pro corredor do prédio, botavam uma tolha nos olhos pra luz não incomodar e dormiam com a metade do corpo no corredor.”
- Ednardo, três décadas da Massafeira Livre (Íntegra)
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SETLIST RADARCULTURA: MASSAFEIRA LIVRE
Cor de sonho (Mona Gadelha), por Mona Gadelha
- Cor de sonho - Mona Gadelha
O que foi que você viu (Stélio Valle / Chico Pio / Nertam Alencar), por Chico Pio
- O que foi que você viu? - Chico Pio
Aurora (Ednardo / Belchior), por Ednardo e Belchior
- Aurora - Ednardo e Belchior
Senhor Doutor (Patativa do Assaré), por Patativa do Assaré
- Senhor doutor - Patativa do Assaré
Pé de espinho (Rogério / Stone / Luis Carlos Pinóquio), por Rogério e Regis
- Pé de espinho - Régis e Rogério
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RadarCultura
Ednardo, três décadas da Massafeira Livre
Entrevista realizada em 27 de setembro de 2011
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