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Uma revista eletrônica de arte
Paulo César Pinheiro, alquimista na contramão
Paulo César Pinheiro cria poesias, letras e melodias há 48 anos. É autor de trilhas para cinema, peças de teatro, novelas e minisséries. Parceiro de nomes como Baden Powell, Dori Caymmi, Edu Lobo e Radamés Gnattali. Já foi gravado por mais de 500 intérpretes e é ouvido nas vozes de Elis Regina, Clara Nunes, Elizeth Cardoso, João Nogueira e Wanda Sá. Pois o incansável Paulo César Pinheiro descobriu mais uma fonte de criação: a própria obra musical.
Foi no início de 2010, logo depois de lançar o romance Pontal do Pilar, resultado literal de um sonho, que o autor começou a esboçar o novo projeto: transformar letras de músicas em romances. Juntou "Sagarana" com "Matita Perê" e estava pronto o primeiro livro dessa fase: Matinta, o bruxo, lançamento da Editora Leya.
"Sagarana", escrita ainda na adolescência, evoca o escritor Guimarães Rosa, por quem Paulo César Pinheiro sempre nutriu enorme admiração. Ele tinha 16 anos quando escreveu a letra musicada por João de Aquino, o primeiro parceiro. "Tempos depois o Tom Jobim ouviu essa canção e se impressionou muito, porque estava começando a ler e a se interessar pela obra do Guimarães; e pediu que eu fizesse uma letra com aquela linguagem. Aí a gente se juntou e fez Matita Perê", lembra o autor. O livro junta a história das duas músicas e forma um triângulo amoroso entre um casal de sertanejos e um violeiro. Traído, o marido fura os olhos da mulher, castra o menestrel e foge. "A fuga já é o Matita Perê, a música que eu fiz com o Tom".
- Sagarana - Paulo César Pinheiro
Enquanto muitos compositores se inspiram em romances para escrever canções, Paulo César Pinheiro trilhou o caminho inverso, e gostou da descoberta. A experiência com Matinta, o bruxo, o fez pesquisar a própria obra musical para encontrar, nas letras, outras histórias que rendam romances literários. E já tem um terceiro título, pronto para ser lançado em 2012: Santa meretriz, baseado na música "Santa Rita da serra", parceria com Paulo Sérgio Santos gravada por Saulo Laranjeiras no CD Sal, de 1994. O romance é ambientado em vários lugares do Brasil, como os igarapés do Pará, Xapuri - no Acre - e as margens do Rio São Francisco.
Mas antes de partir para a publicação de Santa meretriz, Paulo César Pinheiro espera concretizar antigo desejo do amigo e parceiro Tom Jobim: levar para as telas de cinema a junção de "Sagarana" e "Matita Perê". "Eu acho que o Tom iria gostar", conclui.
- Paulo César Pinheiro, alquimista na contramão - Galeria
Leia abaixo um trecho de Matinta, o bruxo, cedido gentilmente pela
Editora Leya.
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Apresentado originalmente na RCB no dia 8 de junho de 2011
Entrevista realizada por Cirley Ribeiro

MATINTA, O BRUXO
Romance
Fugia. Cara lanhada por espinho de mato. Sangue ainda nas mãos e na barba. Camisa de pano ordinário encharcada. Mancha do suor amarelo da travessia longa. E salpicos rubros do esguicho das veias dos baixios do moco.
Atravessara o Grotão da Onça Parda, deixando distante a cabana de beira‑riacho. Dezenove léguas já. Língua seca, parou quando viu filete d’água furando a rocha do Chapadão. Arrancou o grande chapéu amassado, de aba larga e couro cru, e, quase deitado, enfiou a boca no chão. Sentiu o gosto do cascalho e da pedra e o gelo da água de mina. Bebeu como a gata negra depois de caca e pasto. Fartadamente. Molhou o dorso e a peitaria. Afundou o rosto no riinho da fonte e, com as mãos em concha, chuveirou o cabelo preto. Fez isso muitas vezes.
Desapeou da bota e afogou os pés no alivio da benta aguinha.
Se estirou no capim, enquanto a bruma vinha ocultá-lo, lentamente, da luz do dia. Perdera a noção do tempo. Comera quando, por derradeiro? Agora, menos esbaforido, a barriga lhe respondia. Abriu o borna, desembrulhou do trapo velho talisca de charque salgado, talhou no dente forte e mastigou. Desfez o nó do odre de pele de cotia, enterrou a canhota e trouxe um punhado de farinha torrada, fritada na banha de porco, com lascas de torresmo. Arremessou no bolo de carne já mascada, fez o capitão com a saliva e ruminou sem pressa, sentindo o gosto do alimento. Foi sossegando o ronco do ventre. No colo do cansaço adormeceu.
Acordou num pulo de susto, com a lua marcando dez horas no céu. Isso dentro do siso lá dele, que conhecia horário como índio, no carrilhão do ermo do sertão verde. Se assuntou, querendo arrumar as ideias. Não atinara direito com o acontecido. Precisava montar o quebra cabeça. Morrera o filho de uma égua?
E a mulher, sobreviveria?
Agiu no arroubo. No instinto do bicho cutucado. Na labareda da traição. Precisava pensar.
Estudou o arredor. Beirão de serrania. Barro vermelho e terra escura boa de nascer roca. Ribeirinho entortando o chão feito rabisco de mapa. Arvoredinho miúdo espalhado na navalha do capinzal. Pés de frutas que passarinho plantou, dispersadamente. Doces, os bagos, de chupar, enquanto matuta:
— Tenho que chegar no Poço da Paca Branca. Caminho comprido. Compadre Amâncio me acoita, se e que já não sabe do fato, que noticia ruim voa mais ágil que vento de maio.
O olho passeia, perscrutando. Bonito lugar pra se levantar arranchado. Veio de nascente, solo bom pra milho, mandioca, feijão e horta, abundância de pomar bravio, ar montes, pastagem pra umas vaquinhas‑de‑leite e espaço de terreiro pra criação. Não fosse a fuga, ali ergueria pau a pique. Teria dono local tão isolado, longínquo e desconhecido de gente? Na certa pois todo chão que Deus inventou cercaram. Posseiro eu, me tomam. Grileiros os poderosos, os latifundiários, os políticos, e a área vira documento carimbado na letra fria da lei. Forjado e legalizado. Acabara de acontecer com esse tolo colono.
Eh mundo mais mal distribuído!
Eh lei mais fora da lei!
Bicando o farnel, de pouco e pouco, a maneira de pássaro, foi repondo no corpo a forca perdida na estirada. Tinha muito de trilha ainda pra percorrer, de atalho pra desvendar, de picada pra abrir nas veredas do sem final.
Antes de a nevoa azular, agora refeito, entortou rumo, empurrado pela brisa perfumosa da madrugada. Tinha ouvido o pio do Matintapereira pro lado da senda tomada. Era aviso e bússola. Era apressamento de alerta. Era propósito de proteção. Partiu no morse da ave feiticeira.
- Matita Perê - Tom Jobim
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