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  • Chico Buarque participa do programa Vox Populi, da TV Cultura, em 1979. CEDOC FPA

    O humor fino de Chico Buarque

    Adriana Braga | 16.04.2012

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    Muito já se falou do talento que Chico Buarque tem para entender e traduzir a alma feminina. "Olhos nos olhos" e "Atrás da porta" são exemplos de canções femininas. Chico também é constantemente lembrado como uma das vozes da resistência na época da ditadura, um dos mais perseguidos pela censura. "Apesar de você" e "Cálice" ficaram anos esperando sua liberação. Já "Vai passar" e "Pelas tabelas" tornaram-se hinos da campanha Diretas já.

    Agora, não é muito comum ouvir “teses” e “dissertações” sobre o humor na música de Chico. Às vezes, o humor aparece sutilmente, em um uma única frase...

    “Não sou ladrão, eu não sou bom de bola
    Nem posso ouvir clarim” ("Até o fim", 1978)

    Outras vezes o humor é um pouco cruel...

    “Orgulho dos meus pais
    E dos filhos meus
    Ninguém me tira nem por mal
    Mas posso vender
    Deixe algum sinal” ("Bancarrota blues", com Edu Lobo, 1985)

    Em algumas canções fica a impressão do humor, mesmo que não seja possível identificar onde está o verso mais engraçado. Como no caso de "Iracema voou" (1998), que fala sobre uma jovem que vai viver na América... América é um anagrama de Iracema, que como “a virgem dos lábios de mel” de José de Alencar, é do Ceará, ela “não domina o idioma inglês” e talvez por isso “tem saído ao luar, com um mímico”...

    Algumas canções são divertidas por completo... Em "Biscate" (1993), a discussão do casal por ciúme e pelo dinheiro curto pode ser resumida em: “Andas de pareô, eu sigo inadimplente”. Já "Grande hotel" (com Wilson das Neves, 1997), trata do reencontro de um casal...

    “Quando eu pensava em dormir
    Tu chegas vestida de negro
    Vens decidida a bulir
    Com quem está posto em sossego”

    Mas são inúmeras as músicas que provocam sorrisos ao serem ouvidas.

    Talvez o lado humorístico do compositor seja genético. No documentário de Nelson Pereira dos Santos sobre Sérgio Buarque de Holanda (o pai de Chico), as brincadeiras do historiador são citadas por vários entrevistados. Ao falar sobre sua relação com Chico Buarque nos anos 1960, Caetano Veloso em seu livro Verdade tropical descreve o amigo como “dono de um humor mais sádico do que o de Capinam”. E completa contando a história que Chico inventou ao seu respeito. Voltando de uma viagem do Rio de Janeiro, ele espalhou entre os amigos de São Paulo, que Caetano havia enlouquecido, chegando a ser internado em um sanatório, onde teria recebido Maria Bethânia aos berros de “Sai, carcará! Sai carcará!”. Quando Caetano veio à capital paulista estranhou a forma com que todos o recebiam. Até que Toquinho percebeu a armação de Chico.

    “Que filha, visita a família em Sampa
    Às pampa, às pampa
    Voltou toda descascada” ("A rosa", 1979)

    Chico também gosta de inventar personagens. Com Toquinho criou, por exemplo, o jogador de futebol Dorvalzinho e o índio Jururu. Mas, o mais famoso é Julinho da Adelaide, morador da Rocinha e compositor de "Acorda amor", "Jorge Maravilha" e "Milagre brasileiro". Julinho da Adelaide foi a forma bem-humorada que Chico encontrou de enganar a censura para que suas músicas fossem liberadas. O personagem chegou a dar uma longa entrevista ao jornalista Mário Prata para o jornal Última hora.

    “São os homens
    E eu aqui parado de pijama
    Eu não gosto de passar vexame
    Chame, chame, chame
    Chame o ladrão, chame o ladrão” ("Acorda amor", de Leonel Paiva e Julinho da Adelaide, 1974)

    E antes que digam que esse tipo de brincadeira é uma atitude do passado, “da juventude”, basta assistir ao making of do DVD Uma palavra (com direção de Roberto Oliveira, 2006), que foi gravado em Lisboa, Paris e Budapeste. Nele, há uma cena em que na rua, Chico é abordado por várias pessoas que o reconhecem e por três jovens, que querendo saber de quem se trata, perguntam o seu nome. E ele responde: “Zico” e explica que é um famoso jogador de futebol que “jogava no Barça há 15, 20 anos”.

    Para terminar, cito os versos de "Injuriado" (1998), que é uma das minhas preferidas, ao lado de "Grande hotel":

    “Dinheiro não lhe emprestei
    Favores nunca lhe fiz
    Não alimentei o seu gênio ruim
    Você nada está me devendo
    Por isso, meu bem, não entendo
    Porque anda agora falando de mim”

    O titular desta coluna, Vilmar Bittencourt, também tem sua passagem preferida:

    “Parte tranquilo, ó irmão
    Descansa na paz de Deus
    Deixaste casa e pensão
    Só para os teus
    A criançada chorando
    Tua mulher vai suar
    Pra botar outro malandro
    No teu lugar” ("Vai trabalhar vagabundo", 1975)

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    comentários

    Ana Paula
    Ana Paula

    tá muito bonito, viu?

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