Playlists
Seleções musicais e histórias
MPB de casaca
Dia 3 de julho será aberto em Campos do Jordão o 41º Festival Internacional de Inverno, evento criado pelo maestro Eleazar de Carvalho, que se transformou num marco do ensino e da divulgação da música erudita no Brasil.
A playlist MPB de casaca é uma maneira da Rádio Cultura Brasil lembrar seus ouvintes da importância da música na formação do caráter do cidadão. Serve também para romper o limite que muitos acreditam que exista entre o popular e o erudito, barreira que, para os grandes músicos brasileiros e o ouvinte atento, nunca existiu.
Um exemplo é Baden Powell. Em entrevista à Rádio Cultura em 1990, o grande compositor dos afro-sambas destacou a importância do músico popular, ou do estudante de música, ter contato com obras do repertório “clássico”.
- Baden Powell fala da importância da música erudita
A programação da playlist MPB de casaca segue a preparação de um concerto em qualquer grande teatro do mundo. Sem ser esnobe, tem primeira parte, segunda e, na manca, repertório para o bis.
Na primeira parte, a seleção segue mais à risca a partitura.
O primeiro a subir no palco é Baden Powell, que dispensa apresentação. O estupendo violonista interpreta Johann Sebastian Bach, “Jesus alegria dos homens”, música que ele gravou várias vezes, sendo a última ao vivo em Bruxelas, em outubro de 1999.
- Jesus alegria dos homens - Baden Powell
Depois do violão, o piano de Eliane Elias. A brasileira radicada em Nova York tem 20 discos lançados no mercado mundial. Gravou jazz, composições próprias, Tom Jobim, Bill Evans e compositores do passado, entre eles Villa-Lobos, Ravel e Bach. No concerto MPB de casaca, Eliane Elias toca Chopin, a “Mazurca, opus 59 número 3”, do CD On the classical side, gravado nos Estados Unidos em 1993.
- Mazurka Opus 59 - Eliane Elias
Depois de Europa e Estados Unidos, um passeio por salas de concerto do Brasil. MPB de casaca convida Elizeth Cardoso. A Divina interpreta a cantilena das “Bachianas brasileiras nº 5”, de Heitor Villa-Lobos. Elizeth Cardoso foi escolhida porque participou nos anos 1960 de um projeto dirigido pelo maestro Diogo Pacheco que visava romper o limite entre o popular e o erudito. A gravação que temos é de 1979, do LP O inverno do meu tempo.
- Aria das Bachianas brasileiras nº 5 - Elizeth Cardoso
Sai do palco Elizeth Cardoso, entra Edson Cordeiro, cantor de Santo André, cuja extensão vocal possibilita que grave com a mesma desenvoltura Nina Hagen, Prince, Noel Rosa e até mesmo Mozart. Aliás, o cantor incluiu nos seus primeiros discos árias de óperas. Selecionamos uma faixa do CD Terceiro sinal, de 1996, a ária de Xerxes, “Ombra mai fu”, de Händel.
- Ombra mai fu - Edson Cordeiro
A primeira parte do concerto MPB de casaca termina em Moscou. Na terra dos grandes mestres, Tchaikovsky, Stravinsky e Shostakovich, um músico paulistano, especialista em choro, teve duas de suas obras gravadas pela Orquestra Sinfônica de Moscou. Falo de Aleh Ferreira. O compositor, líder do grupo Quintessência e bandolinista, supervisionou em 2006 a gravação da orquestra regida por Gérman Céspedes nos estúdios da Rádio Estatal Russa. Você ouve o terceiro movimento do “Concerto para flauta, opus 34”, antes da pausa para o intervalo.
- Concerto para flauta - Aleh Ferreira
Como disse no início, o repertório da playlist MPB de casaca foi elaborada como um concerto de fato.
A primeira peça da segunda parte é uma homenagem ao músico que rompeu todos os limites entre o popular e o erudito: Radamés Gnattali.
Radamés cansou de fazer orquestrações de música popular. Durante mais de 30 anos foi contratado da Rádio Nacional. Como tinha livre acesso tanto nas gafieiras, como no Teatro Municipal, compôs ao longo da vida obras para solistas de música popular, entre eles Edu da Gaita, Jacob do Bandolim e Laurindo de Almeida.
Uma de suas últimas obras foi dedicada ao bandolinista Joel Nascimento. Para Joel, Radamés compôs o “Concerto para bandolim e cordas”, gravado em 1986 pelo bandolinista e a Orquestra de Câmara de Blumenau, regida por Norton Morozowicz. A orquestra e Joel apresentam o primeiro movimento, allegro moderato.
- Concerto para bandolim e cordas - Joel Nascimento
A partir da apresentação de Joel Nascimento, o concerto MPB de casaca afrouxa a gravata. Se já não definíamos com precisão o limite entre o popular e o erudito, a partir de agora a definição desse limite é impossível.
Algumas obras da chamada música erudita são tão populares como qualquer pop que está malhando nas emissoras de rádio. Você sabe disso. Os músicos sabem disso. Os compositores também.
Um dos mestres no assunto é o flautista Altamiro Carrilho. No final dos anos 1970 ele lançou um LP intitulado Clássicos no choro. Fez tanto sucesso que teve que gravar o volume 2. Ouça a gravação de “Dança das horas”, de Ponchielle, realizada ao vivo no Teatro SESC Pompeia em um dia qualquer da década de 1990, faixa do CD Brasil musical – Arthur Moreira Lima – Altamiro Carrilho.
- Dança das horas - Altamiro Carrilho
Sai Altamiro aplaudido, entra o violão e a voz de João Bosco, que mostra sua arte ao adaptar a obra mais conhecida de Maurice Ravel, “Bolero”. João Bosco toca e vocaliza “Bolerando com Ravel”, registrada no LP Ai ai ai de mim, de 1986.
- Bolerando com Ravel - João Bosco
Muito antes de João Bosco, Oswaldinho do Acordeon, filho de Pedro Sertanejo, criador dos bailes de forró em São Paulo, já agitava as domingueiras no bairro do Brás com músicas de Strauss e Beethoven.
Em 1980 lançou o LP Forró in concert. Uma das faixas é uma adaptação da Sinfonia nº 5, de Ludwig van Beethoven, o criador das quatro notas mais conhecidas do mundo: tchan, tchan, tchan, tchaaaaannnnn!
- Sinfonia nº 5 - Oswaldinho do Acordeon
E para terminar o concerto MPB de casaca escolhemos números de ópera. Muita gente no palco do nosso concerto. Músicos... Regente... Muitos cantores... Na verdade é a Turma do Funil e cantores líricos do Rio e São Paulo que interpretam versos de Chico Buarque sobre melodias de óperas para o musical Ópera do malandro, em gravação de 1979.
- Óperas - Chico Buarque
Aplausos. O nosso concerto termina com uma apoteose, como só é possível nos grandes eventos.
O sucesso é grande e o público pede bis. E como em qualquer apresentação o concertista prepara um número “popular” para o fim, a direção do MPB de casaca não deixou pra menos. Sobe ao palco da Orquestra Tabajara. O público é obrigado a se levantar das cadeiras do teatro e dançar porque ninguém consegue ficar sentado ao som do clarinete de Severino Araújo, tendo também os solistas Santos (trompete) e Luiz (sax tenor) e toda a massa sonora da Tabajara tocando o “Concerto nº 1 para piano e orquestra”, de Peter Ilyich Tchaikovsky, do LP Para ouvir e dançar - Vol. 3, de 1989.
- Concerto nº 11 – Orquestra Tabajara
Agora é ficar em casa e acompanhar as gravações do 41º Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão pela Cultura FM (quinta e sexta-feira, às 21 horas – 103,3 mHz). Porque não há limite entre o popular e o erudito bem tocado.
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Terráquiano
A cultura eleva o espirito mesmo que seja na marginalidade do bom gosto. A vida é erudita por sí só dó ré mi fá so lá !