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Seleções musicais e histórias
Da garagem ao porão
Itamar Assumpção, Ratos de Porão, Tetê Espíndola, Verminose, Grupo Rumo, Mercenárias, Ultraje a Rigor, Cida Moreira e Ira. Não achou alguma ligação entre esses artistas? Pois quem frequentou o teatro Lira Paulistana (1979-1986), em São Paulo, certamente se lembra que todos esses já subiram no mesmo palco.
“No final dos anos 1970, havia muitos artistas, de diversas áreas, que tinham trabalhos para mostrar. Coisas boas, consistentes, mas diferentes do que o público estava acostumado. E tudo o que é diferente, muitas vezes é encarado com preconceito. Então, eles não tinham espaço para mostrar suas obras, porque ninguém queria arriscar em contratá-los”, afirma o jornalista Maurício Kubrusly na monografia Teodoro, 1.091 - A história do Lira Paulistana.
Foi naquele precário porão, instalado sobre uma loja de móveis quase em frente à Praça Benedito Calixto, que dezenas de artistas e bandas tiveram a primeira oportunidade de apresentar seus trabalhos. Ira (ainda com seu nome sem marcante ponto de exclamação), Ultraje a Rigor e Titãs, que se chamavam Titãs do Iê Iê, foram “descobertos” ali e, juntamente com outras bandas do Rio de Janeiro e de Brasília, construíram os anos dourados do rock brasileiro.
Mas São Paulo também foi um berço de outro movimento, dessa vez vindo dos subúrbios: o punk-rock. Enquanto os Ramones e os Sex Pistols se apresentavam na Europa e nos Estados Unidos, bairros como Tucuruvi, Casa Verde e Vila Carolina fervilhavam na Zona Norte de São Paulo em 1977.
"Pânico em SP / As sirenes tocaram / As rádios avisaram / Que era para correr / As pessoas assustadas / E mal informadas / Se puseram a fugir sem saber do que / Pânico em SP." (trecho da música "Pânico em SP", dos Inocentes)
As letras francas falavam da violência, desigualdade e injustiça sociais. Jaqueta e cinto de couro cheios de tachinhas, calça jeans rasgada, coturno e, para os mais radicais, coleira de cachorro no pescoço, alfinetes na cara e cabelos moicanos e coloridos. Bandas como Ratos de Porão, Olho Seco, Voluntários da Pátria, Cólera, Mercenárias e Verminose também tocavam no pequeno teatro do bairro de Pinheiros.
Punk e violência (quase) sempre andaram juntos. As gangues não se entendiam e, ora ou outra, a noite acabava em tumulto. "Claro que existiam os punks violentos, mas as pessoas generalizaram, pensando que todos nós éramos assim", desabafou Clemente, dos Inocentes, à jornalista Érika Sallum, da Folha de S. Paulo, em 28 de novembro de 1996.
O próprio Lira presenciou alguns desses episódios, como o de 1983, um famoso quebra-pau generalizado provocado pelos punks no show do Verminose - grupo do vocalista e radialista Kid Vinil - foi determinante para uma mudança radical no som da banda. O Verminose deixou o punk-rock, adotou o new wave e o nome Magazine.
Em 1986, o Lira definitivamente apaga suas luzes e fecha suas portas. Após um show com bandas punks, começa uma briga que depreda o teatro. “Desde a inauguração daquele espaço, nunca houvera um arranca-rabo tão violento quanto aquele. As arquibancadas de madeira foram quebradas e alguns equipamentos de som, danificados. Porém, o maior prejuízo de toda aquela confusão foi a destruição do luminoso de néon que identificava o lugar para quem passava na rua. Ele nunca mais seria recuperado. Aquele episódio representou o início de um processo de decadência irreversível. Poucos meses depois, o teatro, que reuniu uma das mais inovadoras gerações da história da MPB, seria definitivamente fechado.” (trecho da monografia Teodoro, 1.091 - A história do Lira Paulistana)
Nesta playlist, vamos ouvir algumas músicas (gravadas na época em LPs ou compactos) de bandas que se apresentavam no porão da Teodoro Sampaio.
- É necessário - Tetê Espíndola e Lírio Selvagem
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