Samba, toada e fé
Fé, louvor, prece, promessa, pedido e invocação. Nem parece que é um programa musical. Aqui é lugar de samba, marcha, canção, toada, samba-canção e cateretê.
O 78 RPM fez uma pesquisa no repertório de antigamente e selecionou registros que trazem à luz da música popular a fé religiosa, predominantemente a católica. Diga-se a verdade, quase nada é para ser cantar em igreja.
Percebe-se que Deus é invocado muitas vezes. Geralmente em razão de mágoas de amor, caso de “Deus me perdoe” (Lauro Maia e Humberto Teixeira) e de “Graças a Deus” (Fernando César), nas vozes respectivas de Cyro Monteiro e Dóris Monteiro.
Como tudo é uma questão de fé, quem é que nesse Brasil festeiro duvide da força e do poder dos santos de junho? Quem é que não sabe de traz pra frente, de cor e salteado qual o dia de Antonio, João e Pedro? Os três são os preferidos de compositores e intérpretes. Geralmente são lembrados e citados em músicas alegres, podendo ser na batida do baião, no passo da marcha ou no balanço do samba. É conferir as músicas juninas nas vozes de Jorge Veiga, Cyro Monteiro e Aracy de Almeida.
O ouvinte do 78 RPM terá contato com registros nos quais a religiosidade está muito presente, principalmente quando a inspiração vem do mundo rural. É o caso da cantora Inezita Barroso, que interpreta “Prece a São Benedito” (Hervê Cordovil), de Cascatinha e Inhana em “Ave Maria do sertão” (Conde e Pádua Muniz) e da dupla Torrinha e Canhotinho, cujo primeiro sucesso foi logo com a sua primeira gravação, “Divino Espírito Santo” (deles).
E promessa? Promessa é que não falta, afinal, tudo é uma questão de fé. Sílvio Caldas é porta-voz daquele que pede pra chover no sertão. Francisco Carlos é aquele que fez promessa pra cabocla voltar, pra não abandonar seu coração. E tem aqueles que ficam no pé de quem prometeu e não cumpriu, caso de Orlando Silva em “Aos pés da cruz” (Marino Pinto e José Gonçalves).
Numa edição em que tudo é uma questão de fé, a fé de Vinicius de Moraes e Paulo Soledade em “São Francisco” não é maior e nem menor do que a fé na Virgem Maria. A mãe de Jesus é tema de muitas músicas, sendo a mais conhecida a de Herivelto Martins, “Ave Maria no morro”. Sobre essa canção vale uma nota publicada no volume 1 do livro “A canção no tempo”, de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello: “ ‘Ave Maria no morro’ foi o primeiro sucesso do Trio de Ouro na Odeon. A repercussão do disco, entretanto, trouxe um problema. O cardeal, Dom Sebastião Leme, considerou a canção uma heresia e pediu sua proibição, o que só não aconteceu porque o autor tinha pistolão no serviço de censura. Realmente, a posteridade provaria que Sua Excelência Reverendíssima não estava com a razão: a partir dos anos sessenta, ‘Ave Maria no morro’ tornou-se a composição que maiores dividendos renderia na obra de Herivelto, especialmente por sua execução em igrejas da Alemanha, Áustria, Suíça e outros países europeus”.
- Noite santa, silenciosa – Amanhã vem o Papai Noel – Francisco Alves
Neste especial você vai ouvir outras obras não citadas nesta apresentação. Mas pra você que leu esse texto até aqui, ouça um número não incluído no programa: Francisco Alves em “Noite santa, silenciosa / Amanhã vem o papai Noel” (Gruber, Mozart -
Luiza Margarida).
- Samba, toada e fé - 78 RPM (Parte 1)
_________
78 RPM
Samba, toada e fé
Apresentado originalmente na RCB em 9 de outubro de 2011
Apresentação: Roberta Martinelli
Produção: Eduardo Weber
comente
- play
- pause
- stop
- min volume
- max volume
- previous
- next