White Horse, Fléurs d'Amour e xaxado
O cangaceiro de sanfona, brilhantina no cabelo e parabelo na mão. Lampião sob o escudo da vingança. Banditismo rural em resposta ao poder público corrompido. Violência egoísta. Luxo e riqueza no sertão. Uísque escocês e perfume francês.
De aproximadamente 1870 ao início dos anos 1940, o cangaço mobiliza todos os estados do Nordeste. E sobrevive especialmente do imaginário popular. Capitão Virgulino Lampião foi o mais temido chefe de cangaceiros. Procurado (ou patenteado pela polícia) reinou/errou durante 20 anos pelo sertão.
Ao que consta, bailes semanais animavam o bando, especialmente ao fim do mês, quando as volantes voltavam a seus estados para receber o soldo. A Fazenda Feliz Deserto foi um dos inúmeros aprazíveis lugares onde o forró e o xaxado corriam solto. Bailes banquetes em torno de Lampião. Comida e bebida de toda qualidade. Peixe, galinha, porco, carneiro, coalhada, bolo, cachaça limpa, lembra uma testemunha ocular, gastronômica e forrozeira da época.
Música em torno de Lampião nos leva em primeiro lugar a Volta Seca, o cangaceiro-menino, que chegou a gravar um LP relembrando o repertório do cangaço. Infelizmente, segundo costume discográfico daquele 1957, voz e sanfona não foram suficientes. Ao que os produtores acrescentaram coro e arranjo para grande orquestra, além de uma narração “de época”. Elementos que vieram a inspirar esta audição Veredas.
Talvez a “roupagem” deste álbum já tenha sido inspirada na banda sonora de O cangaceiro (1953), filme de Lima Barreto, que tem música e arranjos de Gabriel Migliori e canções assinadas por Zé do Norte. Se esta película iniciou um longo ciclo de filmes, sua trilha sonora norteou uma estética do cangaço, que se espalhou mundo afora. “Mulher rendeira”, por exemplo, foi gravada em alemão pelo coro e orquestra de Arno Flor; The Browns, trio vocal norte-americano de música country, gravou sua versão apelidada de “O cangaceiro, the bandit of Brazil”. A também americana Joan Baez aposta no potencial da canção dos cangaceiros (dada por Volta Seca) e arrisca sua versão em claro português. Ainda falando em O cangaceiro, quase 30 anos depois, Marlui Miranda é que se inspira a gravar “Sodade” e “Acorda Maria Bonita” em seu álbum Olho d'água, de 1979.
O cangaço é o faroeste nacional. Mais de 50 títulos, entre documentários e filmes de ficção, vem animando diretores desde Lima Barreto. Dois outros marcos para a cinematografia do cangaço estão relacionados a movimentos estéticos (tanto do cinema quanto da música): primeiro, Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber, diretor que assina as canções com Sérgio Ricardo, recriadas a partir da música local – viva o som direto e a música tradicional registrada pelo Cinema Novo. Nele, Corisco, o último cangaceiro, é vivido por Othon Bastos, cuja reza aparece neste programa. Uma terceira via cinematográfica-cangaço-musical nos leva a Pernambuco e ao movimento mangue com Baile perfumado (1997), filme de Paulo Caldas e Lírio Ferreira. A partir de 15 minutos originais de Benjamin Abrahão (o único registro cinematográfico do bando de Lampião), os cineastas pernambucanos recriam os dias de Virgulino burguês.
Entre as recriações musicais dadas pela sétima arte e o registro original (revestido de orquestra) de Volta Seca, esta edição Veredas mergulhou (no raso) pela literatura de cordel, citando os folhetos de Hamurab Batista “Oração de fechamento de corpo que Padre Cícero deu a Lampião), João Abrahão Rodrigues (Lampião o tempo do sertão), José Cordeiro (Visita de Lampião a Juazeiro) e o clássico de José Pacheco (A chegada de Lampião no inferno).Vale deixar por escrito um recado (de boca) dado à volante pelo próprio Capitão Virgulino: "Diga que passei por aqui, amando e querendo bem, pegue meu rastro".
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