Hot tropicália
A Red Hot é uma organização sociocultural com sede em Nova York que desenvolve luta contra a AIDS via cultura pop. Suas compilações musicais com renda destinada a programas de prevenção marcaram época, a exemplo do álbum Red Hot + Rhapsody – The Gershwin groove. Béco Dranoff, produtor paulistano radicado nos Estados Unidos, é um dos associados da organização. Ao lado do fundador da Red Hot, idealizou em 1996 o primeiro álbum brasileiro do projeto, Red Hot + Rio, dedicado à bossa nova. Três anos depois, Béco coproduziu Onda sonora – Red Hot + Lisbon, fazendo a ponte Brasil-Portugal. Arregimentador, produtor musical, diretor artístico e “compilador”, Béco tem participação em álbuns de Bebel Gilberto, Celso Fonseca, Suba e Cibelle, entre outros.
Tropicalismo é um ‘estado’, um jeito de ver o mundo sob uma ótica global, (...) em que tudo é permitido e tudo é possível!
Quinze anos se passaram e agora os ouvidos se voltam à tropicália. Também com coprodução de Béco, a Red Hot Organization lança Red Hot + Rio 2, álbum duplo com a colaboração de cerca de 30 “legendários” músicos brasileiros e artistas da cena “indie” internacional. A lista inclui nomes como Alith Smith, Mia Doi Todd, Tom Zé, Vanessa da Mata, Caetano Veloso, Forró in the Dark e Angelique Kidjo. Sem falar nas parcerias inéditas Beck + Seu Jorge e Marisa Monte + Devendra Banhart + Rodrigo Amarante, para citar dois exemplos. Entre as curiosidades, o folk “leste europeu” do Beirut sustenta o sotaque do norte-americano Zach Condon para uma versão de “Leãozinho”, de Caetano.
- O leãozinho - Beirut
Lá fora, o disco sai no próximo dia 28 de junho pelo selo E1 - Entertainment 1, com pré-vendas abertas no i-tunes americano. Red Hot + Rio 2 tem previsão de lançamento no Brasil entre julho e agosto de 2011. Confira a seguir uma entrevista com Béco (foto abaixo) realizada via e-mail.

Radioklaxon - Você é uma espécie de “embaixador” da música brasileira contemporânea, ou pelo menos estabelece conexões entre o Brasil e o resto do mundo. Fale um pouco sobre essa atividade. Você a encara como uma “missão”?
Béco Dranoff - Não sou “embaixador”, não; sou somente um produtor e diretor artístico que, por viver em Nova York desde 1988, tem muito acesso a artistas e à mídia internacionais. Sempre trabalhei no setor musical/artístico, sou apaixonado pela nossa música, adoro o nosso swing e nossa poesia! Por estar aqui fora por tantos anos acabei conhecendo muita gente; todo mundo acaba passando por NY; fui apresentado a muita gente incrível da MPB. Não é uma “missão”, mas é um grande prazer poder divulgar a nossa música que já é tão apreciada no mundo todo.
Já que estamos numa rádio, qual é a sua relação com o meio?
Meu primeiro emprego na música foi como programador da Jovem Pan II FM, em São Paulo. Eu havia estagiado numa FM de NY chamada WBLS no começo dos anos 1980 e quando voltei ao Brasil fui contratado. Fiquei cerca de dois anos e meio na Pan e, pra mim, foi uma grande escola sobre a indústria. Também me formei em Rádio e TV na FAAP. Adoro rádio, acho que é um meio que acompanha as pessoas e permite que elas façam outras atividades enquanto ouvem. Hoje em dia sou o produtor e host de um programa mensal de MPB online chamado “Sonoridade” no site cultural ArtOnAir.org. [ http://artonair.org/series/sonoridade ]
Antes de falar sobre o novo projeto, queria que você comentasse sua relação com a Red Hot Organization. E, resumidamente, o que é essa organização?
Eu conheci o John Carlin, fundador e diretor executivo da Red Hot, em 1994. Na época eu já conhecia alguns dos grandes nomes da MPB, como Gil, Caetano, Marisa Monte e Bebel. Eu e o John idealizamos o primeiro Red Hot + Rio, lançado em 1996. O projeto era um tributo moderno à bossa nova e tivemos a permissão do grande Tom Jobim para usarmos as suas composições. A Red Hot é uma produtora cultural multimídia dedicada a desenvolver projetos temáticos para angariar fundos e conscientizar a juventude sobre a prevenção contra o vírus do HIV/AIDS. Desde 1990 foram lançados 17 projetos e especiais de TV com cerca de 400 artistas envolvidos.
Como foi recebido fora do Brasil o primeiro Red Hot + Rio? Por aqui, o álbum marcou época; o projeto estabeleceu pontes entre a bossa nova e as novas gerações.
Em 1996 o disco gerou surpresa, pois continha versões super arrojadas para clássicos como “Corcovado”, em drum'n bass pelo duo Everything But the Girl; Caetano com Cesária Évora e Riuychi Samakoto numa versão super eletrônica de “É preciso perdoar”; Stereolab com Herbie Mann fazendo “One note samba/Sufboard”; Marisa com David Byrne numa versão forte de “Águas de março” criada pelo grande Arto Lindsay; ou seja, coisas bem bacanas e inovadoras.
E o Red Hot + Rio 2? A tropicália é a bola da vez? Os gringos estão redescobrindo o movimento (como é o caso de Devendra)?
A onda internacional de interesse pela tropicália não é recente. Desde os anos 1990, Kurt Cobain e Beck falavam sobre os Mutantes. Em 1998, os discos dos Mutantes foram relançados em CD e o David Byrne e eu compilamos o projeto Everything is possible: The best of Os Mutantes lançado pelo selo dele, Luaka Bop. O Gil e Caetano excursionam todos os anos pelo mundo e a imprensa sempre dá muito destaque a eles; isso também gera muito interesse nas novas gerações. Também os DJ's e produtores descobriram os beats brasileiros, os LPs se tornaram objetos de desejo, caríssimos em alguns casos. Nos anos 2000, com a internet, tudo se conectou e as informações ficaram muito mais acessíveis. Uma nova geração neo-hippie-folk-urbana se deu conta de que no Brasil em 68 já se falava em globalização, fusão, entendimento, experimentação, liberdade... Todos os temas da atualidade.
Como foi compilar esse repertório tropicalista e seu entorno? Tem também algo do movimento mangue, Baden Powell e até mesmo da bossa nova? Como foi a equação?
O Red Hot + Rio 2 tem os mesmos coprodutores do primeiro projeto de 1996: eu, o John Carlin e o Paul Heck. Depois de definirmos que o foco seria a tropicália, selecionamos as canções que, para nós, são marcos do movimento, como “Panis et circenses”, “Baby”, “Bat macumba”, “Ogodô”, “Aquele abraço”, “Soy loco por ti América” e “It's a long way”. Também algumas canções que são daquela época e começo dos anos 1970, como “Acabou chorare”, “Águas de março”, “Tudo o que você podia ser”, “Um girassol da cor do seu cabelo” e “Terra”. Temos também algumas canções originais inspiradas pelo clima do movimento. Acho que tropicalismo não é um som ou um estilo. Pra mim, tropicalismo é um “estado”, um jeito de ver o mundo sob uma ótica global, em que tudo é permitido e tudo é possível. Acho que essa é a grande mensagem do movimento: liberdade musical, cultural e social. O mangue beat tem muito a ver com isso; o mangue resgatou um orgulho musical, trouxe à tona novas possibilidades de fusão do pop mundial com as raízes pernambucanas super brasileiras.
Como funciona a escalação dos intérpretes?
No início do projeto fizemos uma lista central com todos os artistas que sentimos serem conectados ou inspirados pelo espírito tropicalista. A lista era longa. Em um ano e meio de produção tivemos que fazer tudo acontecer; algumas faixas foram rápidas e fáceis e outras mais demoradas e complexas na logística. Tudo depende da agenda e disponibilidade dos artistas para criarem coisas especiais para os projetos da Red Hot.
Vamos tomar “Acabou chorare”, com a Bebel, como exemplo. Essa gravação é "histórica"... Pode falar sobre essa faixa?
“Acabou chorare”, de fato, é muito especial, num plano pessoal é uma música que me remete à minha infância em São Paulo, meus irmãos ouviam esse disco o dia todo e eu o absorvi por osmose. Também pela minha relação tão antiga e profunda com a Bebel, a faixa tem um valor muito grande. A Bebel já cantava a música aqui em shows com o Pedro Baby, grande violonista e compositor, filho de Baby e Pepeu. Durante a produção do disco recente de Bebel, All in one, ela gravou a faixa com Pedro Baby e Davi Moraes na Bahia, mas faixa acabou não entrando no disco e ficou livre para o projeto Red Hot + Rio 2!
- Acabou chorare - Bebel Gilberto
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