Instrumental cerebral paulistano
No começo dos anos 1980, a música instrumental brasileira encontra seu nicho e forma admiradores além do circuito artístico. Hermeto Pascoal, talvez o maior expoente do gênero dentro e fora do Brasil, trava contato com importantes jazzistas e instrumentistas naquela época. Egberto Gismonti também segue sólido em sua evolução musical, reafirmando a linguagem autoral. Isso somado aos festivais de jazz (em São Paulo e na Suíça) que fazem a ponte entre os músicos, abrindo caminho para uma geração de compositores e intérpretes dispostos a se aventurar por essa tortuosa trilha.
Hermeto abre esta playlist com “Música das nuvens e do chão”, segunda faixa do álbum Cérebro magnético, cuja contracapa assinada pelo autor expressa sua tentativa de fotografar seu próprio cérebro.
- Música das nuvens e do chão – Hermeto Pascoal
Na cena paulistana, o estudante da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) Azael Rodrigues, baterista recém-chegado da Europa e interessado em jazz, escuta o piano de Felix Wagner e encontra seu contraponto. Azael e Felix juntam-se ao baixista Rodolfo Stroeter e criam o grupo Divina Increnca.
Entusiasmado com o conceito de transcriação dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, cujo requisito era o pleno entendimento do texto para uma recriação que prime por preservar a magia do autor, Azael e Felix se empenham na criação de temas autojustificáveis, nunca usados de forma indiscriminada, numa investigação de ritmos, adotando procedimentos complementares a composição.
Azael parte da ideia da quebra da forma jazzística (tema/improviso/tema) que, em sua opinião, está desgastada. As obras dos vanguardistas John Cage e Karlheinz Stockhausen, das quais é ouvinte, influencia o caminho do Divina. Infelizmente existe somente um álbum do grupo, gravado ao vivo na Sala Guiomar Novaes em setembro de 1980. Além do trio, o disco conta com o flautista e saxofonista Mauro Senise e Claus Petersen, do grupo Premeditando o Breque.
No porão de uma casa em Pinheiros, na rua Teodoro Sampaio, em São Paulo, juntam-se os irmãos Nazário (Zé Eduardo e Lelo) e o baixista Zeca Assumpção para iniciar o projeto do Grupo Um.
Surgido durante os intervalos das apresentações de Hermeto Pascoal em São Paulo, o grupo se reúne para criação de uma linguagem autoral ligada aos sons da vanguarda da época.
Entram em estúdio em 1977, quando definitivamente deixam o grupo de Hermeto. Mesmo com a colaboração do soprista Roberto Sion e do baterista Carlinhos Gonçalves, o trio não recebe respostas positivas, o que não o impossibilidade novos trabalhos autoriais.
No dia 26 e 27 de setembro de 1979, no estúdio Vice-Versa B, de Rogério Duprat, nasce o lado A do disco Marcha sobre a cidade. É gravado em um único take e conta com a participação de Mauro Senise.
Com tiragem inicial de mil cópias, o Marcha é o primeiro disco de instrumental lançado de forma independente no Brasil. As apresentações de seu lançamento se dão no Teatro Lira Paulistana, o lar dos independentes de São Paulo. Em 1983, o disco é lançado na França, onde o grupo se apresenta e tem um concerto gravado no Studio 106 da Rádio France.
- 54754–P(4)–D(3)–0 – Grupo Um
Ainda sobre este trabalho, elogiado pela crítica musical, o grupo é alvo de boicote no 1° Festival de Jazz de São Paulo, em 1978, ao executar “Mobile/Stabile”. Os produtores desligam as fitas pré-gravadas, desmontando a performance do conjunto. Na opinião de Zé Eduardo, as gravadoras não estavam satisfeitas com a estranheza proposta pelo Grupo Um.
Em 1980, sem Zeca Assumpção e Carlinhos Gonçalves, que deixam o grupo, nasce o álbum Reflexões sobre a crise do desejo, considerado pela crítica um dos dez melhores lançados no Brasil em 1981.
- O Homem de Wolfsburg – Grupo Um
Bancado pelo selo Lira Instrumental (parceria entre o Teatro Lira Paulistana e a gravadora Continental), o disco A flor de plástico incinerada marca, nas palavras de Zé Eduardo, a “fase colorida” do grupo. A capa já anuncia: do antigo tom escuro dos dois primeiros álbuns, aprensenta-se em dois tons de azul que representavam o mar da Bahia em dia ensolarado.
Para Zé Eduardo, muitos grupos instrumentais conseguem emerger e se firmar no gosto do público naquele período. Após o lançamento do Flor, o Grupo Um se desfaz. Como cada conjunto de “música sem voz” almeja encontrar sua identidade, o mesmo serve para seus músicos. E diferentes trabalhos coletivos levam cada música a um caminho diferente.
REPERTÓRIO
01. Música das nuvens e do chão, por Hermeto Pascoal
02. Loro, por Egberto Gismonti
03. Frevo do cheiro (nois sofre + nos goza), por A Divina Increnca
04. Conforme o dia (Filomena), por A Divina Increnca
05. 54754–P(4)–D(3)–0, por Grupo Um
06. O Homem de Wolfsburg, por Grupo Um
07. A flor de plástico incinerada II, por Grupo Um
08. Olhos de Plexiglass, por Grupo Um
- Música das nuvens e do chão – Hermeto Pascoal
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