• Controle Remoto - Ouça Ao Vivo

  • No picadeiro da vida

    Eduardo Weber | 21.10.2010

    Uma das passagens mais conhecidas da vida de Noel Rosa é a polêmica entre ele e Wilson Batista, uma verdadeira luta de boxe musical que começou em 1933 e só foi terminar três anos depois, em 1936. E por qual motivo?

    Noel Rosa era considerado um “malandro medroso”. Admirava a malandragem, mas queria distância dos rabos-de-arraia e muito mais distância ainda das navalhadas. Wilson Batista era considerado um “malandreco”, classificação depreciativa atribuída aos malandros de fato, que tanto Wilson quanto Noel conhecia muito bem: Baiaco, Zé Pretinho, Saturnino, Meia-Noite, Brancura e Camisa Preta.

    João Máximo e Carlos Didier lembram que naquela época “o bairrismo fazia parte do coração de quase todo carioca”. E mais: em 1933, Noel Rosa já era um nome da música brasileira. Wilson Batista, não. Foi nesse ano que Wilson lançou, por meio de Silvio Caldas, “Lenço no pescoço”, um louvor à malandragem.

    Noel Rosa, por seu lado, admirava a malandragem. Então porque deu uma de defensor da moral e dos bons costumes com “Rapaz folgado”, puxando briga e de cara com um golpe certeiro no “malandreco” Wilson Batista?

    Esse só foi o primeiro assalto, pois o segundo começa com “Feitiço da Vila”, um dos grandes sucessos do compositor de Vila Isabel, que mereceu uma resposta da parte de Wilson Batista: “Conversa fiada”.

    Quando “Conversa fiada” passou a ser divulgada pelo rádio, quem não assimilou o golpe foram os moradores de Vila Isabel, que exigiriam de Noel Rosa um contra-ataque a este verdadeiro insulto contra o melhor bairro do Rio de Janeiro, na opinião de seus moradores, diga-se, torcedores.

    Nasceu “Palpite infeliz”. Malandramente, no samba que exalta Vila Isabel há lugar para todos (Estácio, Mangueira, Oswaldo Cruz, Salgueiro...), só não há lugar para aquele que não sabe o que diz, ou seja, Wilson Batista. Fim da luta? Nocaute?

    Nem tanto. Meio grogue, meio que sentindo as pernas, Wilson apela para uma rasteira, se por um lado válida na rua, por outro nunca foi admitida no ringue: o samba “Frankenstein da Vila”. Noel Rosa ignorou, fez de conta que não era com ele, como de fato era seu modo de agir, ignorar seus desafetos. Mas cabe aqui a mesma pergunta de antes: por que Noel foi puxar briga justamente com Wilson?

    Falta apenas um nó para ser desatado dessa história toda. Basta você ouvir este capítulo de Noel Rosa, as histórias e os sons de uma época.


    REPERTÓRIO

    “Emília” (Wilson Batista e Haroldo Lobo), com Vassourinha
    “Lenço no pescoço” (Wilson Batista), com Sílvio Caldas
    “Rapaz folgado” (Noel Rosa), com Aracy de Almeida
    “Mocinho da Vila” (Wilson Batista), com Jorge Veiga
    “Feitiço da Vila” (Noel Rosa), com João Petra de Barros
    “Conversa fiada” (Wilson Batista), com Jorge Veiga
    “Palpite infeliz” (Noel Rosa), com Aracy de Almeida
    “A mulher que ficou na taça” (Francisco Alves e Orestes Barbosa), com Francisco Alves
    “É bom parar” (Rubens Soares e Noel Rosa), com Francisco Alves
    “Frankenstein da Vila” (Wilson Batista), com Jorge Veiga
    “Terra de cego” (Wilson Batista), com Jorge Veiga
    “Deixa de ser convencida” (Noel Rosa e Wilson Batista), com Wilson Batista
     

    • No picadeiro da vida (Parte 1) - As histórias e os sons de uma época

     

    compartilhe

    comente

    É preciso estar logado para comentar. Fazer Login | Não tenho login