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  • Leia o texto de apresentação do especial de 1992

    João Máximo / Carlos Didier | 25.04.2010

    Qual terá sido a profissão de Noel Rosa? Quem responder compositor, ou letrista, ou boêmio, ou malandro, terá errado, mesmo que o Poeta de Vila Isabel tenha sido tudo isso e muito mais. Na única carteira de trabalho que ele teve em sua curta vida (1910-1937), está lá, com todas as letras, suas verdadeira profissão: cantor de rádio.

    Não se surpreendam. Os grandes cartazes da música popular brasileira dos anos 30 eram, sem exceção, gente do rádio. Podiam se apresentar em circos e teatros, participar dos festivais da Penha e gravar discos, mas era no rádio que realmente aconteciam. O veículo acabara de se comercializar. O que até bem pouco fora um ógão de "divulgação cultural", proibido de transmitir anúncios, abria agora espaço para os chamados reclames ("Comprem no Dragão, a fera da Rua Larga..."). A partir de então, o rádio virava fonte de faturamento, tornava-se bom negócio. Graças a uma novidade decorrente, o cachet, os artistas se profissionalizavam. E a música popular brasileira, em razão de tudo isso, ingressava na "época de ouro" de que falam os historiadores.

    Não fosse o rádio é possível que Noel Rosa não tivesse sido Noel Rosa. Seus sambas não teriam se popularizado com a mesma força, nem sua voz seria tão conhecida. Mas se Noel tem um débito para com o rádio, a recíproca também vale: graças a ele o rádio brasileiro tornou-se mais vivo, mais inventivo, mais interessante. Pois Noel, atuando em praticamente todas as emissoras do Rio, multiplicou-se por muitos nas funções de cantor, contra-regra, improvisador em desafios, redator de sketches humorísticos, criador de revistas radiofônicas, parodista e, de parceria com o maestro húngaro Arnold Glückmann, autor de uma curiosíssima opereta. Fazia de tudo um pouco - e fazia bem.

    Mas se Noel não pode pagar seu débito para  com o rádio (não teve tempo), é através da Cultura AM - uma rádio de música brasileira - que o veículo começa a saldar o seu. Foi idéia de Maria Luiza Kfouri transformar nosso livro Noel Rosa - uma biografia numa série de programas semanais que ficarão no ar ao longo de oito meses. Uma experiência, para nós, fascinante. E por vários motivos. O primeiro deles é que Noel Rosa sempre nos pareceu personagem mais radiofônico que televisivo, razão pela qual resistimos à proposta que a Globo nos fez para que o livro fosse convertido em minissérie.

    Já no rádio, nós mesmos participando da produção, roteirização e apresentação da série, não correríamos risco de ver traída qualquer das intenções do livro. Afinal, era exatamente o que Maria Luiza Kfouri propunha: uma série tão parecida com o livro quando posível. Fora isso, as condições oferecidas pela Cultura AM era, nesse sentido, excepcionais: locutores, rádio-atores, técnicos, uma equipe de primeira. A Valvênio Martins seria entregue a produção executiva, no que, não tardaríamos a descobrir, ele é um craque. A voz bonita de Vânia Bastos foi convocada para dividir com Caola o desarquivamento das canções inéditas ("Não morre tão cedo", "Marcha da prima... Vera", "Habeas corpus", "Faz de conta que eu morri", "Vagolino do cassino" e várias outras). E mais: Maria Luiza Kfouri permitia (ou exigia) que revelássemos ao público, sempre que fosse o caso, as gravações originais de cada composição de Noel Rosa, muitas delas não executadas em rádio há mais de seis décadas. Quem de vocês conhece a gravação original de "Rumba da meia-noite", ou de "Não me deixam comer", ou de "Não há castigo", esta tão rara que até os autores da momumental Discografia brasileira de 78 rotações por minuto duvidavam de sua existência? Claro, tais discos podem soar anacrônicos a ouvidos já habituados à mágica do laser e do digital. Mas, perto da oportunidade única de ouvi-los, quem vai se importar com os chiados?

    A série, por esses e outros detalhes, acaba sendo uma versão sonora bastante fiel ao livro. Com uma vantagem sobre este: ler letra de música sem a própria é uma coisa; ouvir a canção por inteiro, outra. E não apenas a canção, mas as vozes de muitos dos personagens que fizeram parte da história de Noel Rosa, gravadas nos cassetes que resultaram de incontáveis entrevistas: Mário Reis, Sílvio Caldas, Cartola, Aracy de Almeida, Ismael Silva, Donga, Marília Batista, Cristovão de Alencar, Nássara, gente de música, malandros, as maiores musas do poeta (a namorada de adolescência, a inspiradora de "Três apitos" e a viúva), os amigos de infância, os colegas de colégio, toda uma galeria.

    Levamos quase oito anos para escrever o livro e praticamente um para fazer de Noel Rosa - As histórias e os sons de uma época, uma série que - menos por nós do que pelos demais profissionais envolvidos no projeto - ocupa desde já o lugar único na história do rádio brasileiro. No mínimo, é a mais longa, detalhada e informativa das que já foram dedicados a um nome de nossa música popular. E, sem dúvida, a que promove a mais reveladora arqueologia musical. Uma série sobre Noel, sua vida e sua obra, seu gênio e suas paixões, seu humor e suas tragédias, mas também sobre o tempo e o lugar em que ele viveu, o Brasil dos anos 20 e 30, a boemia, a malandragem, a política, a música e os músicos, o teatro, o começo do cinema falado, o rádio.

    A propósito, acreditamos que o cantor de rádio Noel Rosa teria gostado.

    EXIBIÇÃO 28.04.2010, 09:00

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