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  • Bruno e Eliete em ensaio fotográfico do álbum From a forest near you. Divulgação

    Tetine é teta de vaca

    Julio de Paula | 02.05.2010

    Após quinze anos e dez álbuns, o Tetine chega à alta adolescência na maturidade de seu tropical funk. Identidade a toda prova, a banda/duo mutante faz música eletrônica em experiência com a performance, o teatro físico, a poesia e a vídeoarte. Repertório não-convencional, improviso e provocação compõem um projeto visceral.

    Radicados em Londres e abertos para o mundo, Eliete Mejorado e Bruno Verner tratam sua obra ritualística a partir dos relacionamentos e utopias, do cósmico e do sexual, do natural e do urbano, do político e do emotivo, do orgânico e do sintético. Para poucos e para muitos.

    Proposta nascida em São Paulo em 1995, faz da galeria de arte a extensão natural dos palcos. Trabalhando em colaboração, o duo já dialogou com uma das mais importantes artistas da atualidade - excursionou por museus com seu Samba de Monolisa: Tetine X Sophie Calle, para citar um só exemplo. Tudo sem se afastar das pistas de dança.

    Com seu programa “Slun Dunk”, o Tetine marcou presença na criação da Ressonance FM, rádioarte londrina de programação orgânica. E revelou aos europeus o funk carioca, inserindo o gênero no glossário da eletrônica mundial.

    O ano 2010 marca o lançamento do décimo álbum, From a forest near you (De uma floresta perto de você), título irônico que traz 14 faixas lapidadas em casa e editas por selo próprio, o Slun Dunk Music.



    Cinema-música, catarse-sonante

    Tetine é andrógino de língua melódica e dissonante. Música integrada a suportes outros, seu canto-falado é naturalmente sexy e viajante, des-construído e subvertido.

    A trajetória de amor e desafios desta banda sui geniris foi revista nesta longa entrevista concedida por Bruno Verner via Facebook desde Londres. Acompanhe.

    Klaxon - Como é a primeira vez que conversamos e imagino que seja a primeira vez que teremos Tetine na CulturaBrasil, que tal uma retrospectiva? Também 15 anos e 10 álbuns são números “redondos” que pedem isso, não?!  Desde o início, o Tetine faz uma música além da música? Eletrônica expandida para o campo da performance, da videoperformance? Como se opera isso? Não é todo mundo que aproxima a música com o universo das artes plásticas. Como é fazer da galeria um palco?
    Bruno Verner
    - Eu acho que não existe um limite ou uma separação entre a música e as artes pra gente. O Tetine faz música, mas faz também performance art, vídeo, physical theater, entre outras coisas. É difícil definir. Na nossa cabeça, estamos fazendo uma espécie de “cinema” via música eletrônica, algo que quando transposto e incorporado em diferentes suportes (seja em disco, vídeo, performance, mixtape etc) ou num espaço de show ou entre quatro paredes de uma galeria, é capaz de produzir um efeito parecido com aquele de ir ao cinema. Tanto eu quanto a Eliete, temos um background musical, mas também artístico. Acho que por isso a gente não separa as coisas quando estamos criando pro Tetine. Eu venho da cena de pós-punk, música eletrônica e poesia dos anos 80, toquei em várias bandas da época e a Eli vem da performance art, do experimentalismo, do spoken-word, do teatro físico. A gente se encontra por esses universos e é a partir daí que o Tetine cria.

    Vocês podem estabelecer fases para o Tetine?
    O Tetine começou como um “experimento” que acabou dando numa espécie de “banda” / “art project”. Eu conheci Eliete em 1995 participando de uma performance e nessa época costumávamos improvisar juntos no Teatro Oficina. A gente ensaiava com um piano e eu tinha um sequencer/drum machine MMT8 e um sintetizador DX100 que eu usava para fazer música eletrônica e criar atmosferas, beats e bases. A Eli fazia filmes em Super 8 e criava vídeos com imagens em VHS esverdeadas. O que aconteceu foi que descobrimos ali nesses improvisos que tínhamos muita coisa em comum e acabávamos inventando coisas que soavam bem inusitadas de maneira totalmente intuitiva, prazerosa, sem burocracia.

    O Tetine literalmente surgiu desses primeiros improvisos, desse encontro. Nessa primeira fase estávamos os dois em busca de algo que fosse eletrônico e orgânico musicalmente, mas que não fosse óbvio. Algo que fosse físico, catártico, atmosférico, atonal. Nosso objetivo era basicamente criar performances utilizando música eletrônica, vozes naturais e processadas, procedimentos corporais e manipulação de imagens. Nesse período, a Eliete estava em busca de uma “voz do joelho” e das diferentes ressonâncias que temos no corpo. Eu estava em busca de algo atonal, libertador, catártico – tudo de maneira intuitiva. Daí nasceu o Tetine. A gente parou pra conversar e vimos que já tínhamos um repertório estranhíssimo. :-) Se era uma banda ou um projeto de arte, não estávamos preocupados em definir.



    A primeira fase foi o Alexander’s Grave, nosso primeiro disco de 1996, que nasceu como uma espécie de missa atonal para piano, voz e eletrônicos. Utilizávamos textos de Strindberg, Brecht, Alfred Musset como “cut ups” [técnica de colagem dada] num esquema William Burroughs para fazer música. Ali tudo ainda era muito sombrio, muito industrial, quase histérico. Música eletrônica não-quantizada e bem visceral.



    Numa segunda fase, criamos performances como Eletrobrecht, "Música de amor", "Sala de estar", que eram projetos de spoken word e eletrônica que apresentávamos em cinemas e pequenos teatros… Também dessa época vieram os discos Creme em 1997 e Música de amor. Depois fomos para Londres em 2000, a principio para fazer uma residência de nove meses na Queen Mary University. Nessa época fizemos Living Room e Verité e um pouco mais tarde um projeto com a Sophie Calle que acabou virando um disco chamado Samba de Monalisa, Tetine vs Sophie Calle - lançado pela Sulphur Records e depois apresentado na Whitechapel Art Gallery dentro do nosso projeto Tetine: The Politics of self indulgency. Acabamos numa tour apresentando as musicas desse disco e decidimos esticar nossa estadia pela Europa e acabamos não voltando a morar no Brasil.



    Depois veio funk carioca que chegou sem pedir licença! Eu e Eli ficamos apaixonados com o grau de atitude, espontaneidade e despretensão dos artistas de funk do Rio. Começamos a fazer colaborações com MCs e incorporar o funk na nossa música. Fomos os primeiros a inserir o funk carioca em outros contextos que não os bailes funk do Rio de Janeiro. Tudo isso começou no programa de rádio Slum Dunk, na Resonance FM que é basicamente uma radioart de música experimental daqui de Londres. Começamos a tocar todos os artistas de funk, dos mais populares aos mais obscuros (incluindo os proibidões), uma vez por semana durante uns dois anos. Na mesma época, começamos a fazer DJ sets, produzimos – se não me engano – o primeiro mixtape/compilação de funk na Europa, o Slum Dunk Presents Funk Carioca e lançamos mais dois discos autorais do Tetine totalmente influenciados pelo funk carioca: Bonde do Tetão (2004) e Lick my favela (2005) seguido por uma coletânea chamada The sexual life of the savages (2005) sobre o pós-punk de São Paulo pela Soul Jazz Records.



    Depois gravamos o disco Let your x’s be y’s pela Soul Jazz também e os singles em vinil I go to the doctor e A história da garça. Dessa mesma fase vieram uma série de vídeos, fotografias, músicas, instalações e projetos de curadoria que circulavam em torno do conceito de tropical punk. E agora o nosso disco novo From a forest near you que acabou de sair em fevereiro, cuja primeira faixa, "Tropical punk", conta um pouco disso tudo.

    Não podemos deixar de falar mais sobre o funk carioca, que sem dúvida vocês ajudaram a divulgar internacionalmente. Conheço a compilação que vocês lançaram. Também vi a performance do Sonarsound (2004). Aqui em São Paulo, em geral, o funk carioca é abominado...
    Acho que muita gente virou a cara pro funk carioca no Brasil de modo geral no começo da década passada. Aquela velha história da vulgaridade das letras, da falta de melodia, do mau gosto, da repetição e tal. Era sempre esse o papo que eu ouvia, principalmente da classe média. O que eu posso dizer é que a nossa relação com o funk carioca sempre foi de profunda admiração em vários sentidos – dos beats à incorporação do tamborzão na batida do Miami bass, da atitude dos MCs, do trabalho dos DJs, das equipes de som, os bailes, do papel fundamental dos camelôs, enfim. Com o passar do tempo, já em 2005, 2006, eu sentia que muita gente que até então rejeitava o funk como uma música eletrônica brasileira estava mudando de opinião. Acho que o fato do funk ter sido aceito no exterior como um estilo a mais, como o Miami bass, o Grime, o Dancehall, o Dub ou Crunk, fez com que muitos olhassem pra história toda com outros olhos.

    Acho que o Tetine tem uma participação boa nessa historia! Na minha opinião, o funk carioca vai continuar a existir sempre, não interessa se ele esta na moda ou não. Na minha cabeça, o funk funciona um pouco como o heavy metal, sempre vai ter sua própria cena e seu próprio público.



    Como é operar com a eletrônica da velha escola? Vocês trabalham com sonoridades “vintage” ou, digamos, com “baixa definição”, o que de certa maneira traz mais invenção e acaba deixando o som orgânico, não?
    Eu adoro hardware, gosto de synths antigos, de sequenciador, das baterias eletrônicas da Roland, Yamaha, toy piano e por aí vai. No Tetine a gente usa muita coisa tipo SH 101, TR 808 e tal. Mas eu acho que o que deixa o som mais orgânico é o jeito que você faz música e não somente o equipamento que você usa.

    Em algum lugar, vocês se definem como “Tropical mutant punk funk/ new wave & experimental electro-pop fused with minimal cosmic dark-disco”. É isso? From a Forest Near You vai por aí?
    “Tropical mutant punk funk”. É isso aí. A primeira música, “Tropical punk”, já dá uma dica nesse sentido. Tem o clipe também que é todo feito nessa mesma estética. O From a forest… tem uma pegada kraut [kratrock – som característico de bandas alemãs dos anos 60/70, como Kraftwerk, Can e Neu!], é bem pós-punk, meio cósmico viajandão e, às vezes, minimal wave [incorporação do minimalismo no pós-punk]. Acho que ele é um disco bastante eletrônico, mas de uma maneira bem orgânica. Tem muito swing, muitos contrapontos de guitarra, baixo, synth e muita bateria eletrônica com percussão. Voltamos a escutar um monte de coisas que a gente ama, e acho que isso tudo refletiu na sonoridade do disco novo. Muito Kraftwerk, Brian Eno, Can, Harmonia, Cluster do começo. Acho que esses são os pais espirituais do disco.

    O Tetine é invenção a toda prova. Eu acho que vocês sempre surpreendem. A dupla, o duplo e o dúbio. Tetine também é ambiguidade?Também acho que circular pelo underground incomoda. De certo modo, o Tetine anda na contramão?

    Andar na contramão não é algo que necessariamente estamos à procura. Acho que esta no DNA do Tetine pelo trabalho ter muita identidade. O Tetine funciona como um restaurante pequeno: pode ate ter filiais por aí, mas nunca vai ser um McDonnalds. :-)



    Estamos no contexto CulturaBrasil. Gostaria que você falasse como se inserem no panorama internacional (estão estabelecidos em Londres há 10 anos). O Tetine é visto como um grupo do Brasil? Ou isso não é importante? Tem letras em português no álbum novo?
    Sim, tem duas faixas em português no novo álbum. “Não” e “O espaço”, as outras 12 são em inglês. Sobre ser visto como um grupo do Brasil, isso depende. Por exemplo: nossos discos nas lojas não ficam na parte de world music ou brazilian. Geralmente ficam na parte de pós-punk, eletrônica ou experimental. Mas como artistas a gente sempre se “coloca” como brasileiros mesmo depois de morar 10 anos por aqui. Acho importante isso, tem a ver com o lugar que você começou, com as suas raízes. O Tetine funciona mais como um grupo internacional com dois integrantes que são brasileiros!

    Isto não é uma entrevista. Muito obrigado por este tratado!


    Dança dos círculos e dos duplos

    Loops e dubs sustentam as canções simples. O canto falado em sussurro pede pra ser amplificado. Tetine deve ser ouvido em alto e bom som num ato de entrega. Quando se escuta os versos provocativos, as batidas já dominaram o corpo que pulsa. Orgânico sobrepõe-se à síntese.

    Do francês, Tetine é chupeta. Do italiano, teta de vaca. Do português, vem a sonoridade da palavra: T e t i n e.

    Bruno-Eliete. Leite-natural, arte-interativa. Performance-coletiva. Cinema-sonante. Tropical às extremas, Tetine é convite à dança da mestiçagem. Pra quem sabe mexer o esqueleto com graça. Pra quem tem malemolência. E atitude.

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