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  • Ligiana: "Nasci saudosa do passado, por isso fiquei tão ligada à música antiga, à renascença e ao barroco!". Daniel Madsen

    O canto livre de Ligiana

    Julio de Paula | 24.07.2010

    Ela vem do azul-oceano de Iemanjá. Carrega as ondas do mar em seu timbre original. Seu canto da saudade é pulsado pela vontade de pisar novos territórios. "Saudade é sentimento de navegantes, tem uma ligação direta com o mar, né?" , indaga Ligiana.

    Intérprete preparada, está à vontade no patrimônio samba e no barroco italiano. É dramática no choro ou no lamento negro do Haiti. "Comecei a estudar canto ainda adolescente, sem saber muito pra que poderia servir, mas adorava as aulas e a descoberta dos repertórios", recorda. Em busca de novas partituras, voltou-se para trás e encarou o novo. Ligiana abraçou a musicologia.

    Economia e conceito impregnaram de voz seu primeiro projeto discográfico - De amor e mar, edição independente de 2009. Além dos assuntos presentes no título, o pandeiro também é personagem do álbum. Canções quase esquecidas foram compiladas com frescor do tradicional repertório da música popular brasileira. "Eu gravo e canto o que me toca o coração, este é meu filtro. Se não me arrepia não posso cantar", esclarece. Em De amor e mar, Ligiana aponta como compositora em duas faixas, entre elas a canção “Onda”, cuja identificação com a autora é imediata.

    "Barroco quebra barraco”, em definição de Zé Miguel Wisnik, Ligiana é sinônimo de movimento. O duplo de Lígia e Ana (avó e mãe, em nome/poema da lavra do pai) marca esta inquieta leonina que suplica a calma aos deuses do mar. Ligiana faz música “sanguínea e honesta”, sob o vermelho de Xangô.
     


    A seguir, a íntegra da entrevista concedida via e-mail/facebook.


    Julio de Paula - Você é filha de Xangô com Iemanjá? Essas energias naturais estão na sua música, não?!
    Ligiana -
    Orixás e suas energias são presentes em tudo, no cotidiano e na música. Minha cabeça é de Iemanjá, meu segundo orixá é Xangô. Acho que minha fé está presente no que faço, sim, mas não sempre de forma consciente. Sabe aquela canção da Timbalada? “Eu canto pra terra porque amo a terra, eu canto pro sol porque amo o sol”, é por aí... Se o canto nasce do amor, da sinceridade, ele me interessa sempre.

    A paixão pelo mar me parece uma questão séria. Em seus vídeos, você está bem à vontade junto aos africanos. E sua música tem um sentimento ibérico muito forte. Você poderia falar sobre isso tudo e sobre a ideia de pisar novos territórios?
    Sou filha do mar, apesar de ser de uma cidade (aparentemente) sem mar. Gosto do que o mar representa - as viagens, os horizontes e o distanciamento. Sou muito apaixonada pelo Mediterrâneo, vivi por lá e tenho muita gratidão àquelas águas que são cheias de histórias fortes. Amo a música criada por ali, da tarantella do sul da Itália ao flamenco. Tive a sorte de encontrar na minha jornada músicos também apaixonados pelas músicas do mundo, isso acrescenta muito ao que faço. Virei viajante por conta própria, saí de casa pela primeira vez (pra viver um ano na Itália) aos 17 anos. Depois da faculdade fui pra Europa novamente e fiquei nove anos. Nesses nove anos vivi na Holanda, Itália, Espanha e França. Deixei um pouco do meu coração por cada lugar que pisei e carrego dentro de mim muito desses lugares. Assim como carrego o interior de Minas (de onde migrou a família de minha mãe) e as profundas florestas do Maranhão (de onde migrou a família de meu pai). Acho que ser de Brasília tem um pouco a ver com isso, é uma cidade de ciganos (o próprio Juscelino era cigano), cidade de andarilhos ousados, de candangos.

    E a saudade está implícita neste contexto, não?!
    Saudade é sentimento de navegantes, tem uma ligação direta com o mar, né? Acho que minha musicalidade tem mesmo uma relação com isso. Nasci saudosa do passado, por isso fiquei tão ligada à música antiga, à renascença e ao barroco. Minha cantora preferida do Brasil é Carmen Miranda, veja só. Ao mesmo tempo, tenho muita curiosidade pelas sonoridades de “além-mar”, em casa ouço muito músicas da África, do Oriente Médio... além das nossas criações brasileiras e muito, muito tango. Enfim, acho que quando se decide por “caminhar” a saudade vira algo implícito. Estará comigo pra sempre.

    Como o planalto impregnou você de música? Você cresceu em Brasília?
    Cresci em Brasília num meio muito especial. Meu pai é jornalista e multi-artista, tinha uma banda de rock louquíssima nos anos 80 chamada Akneton e, além disso, me levava ao teatro toda semana. Vi muita coisa desde bem novinha, de Stockhausen a Paulo Autran, de Kazuo Ono às grandes orquestras... Eu vivia dentro do Teatro Nacional, chegava até a dormir no chão do teatro quando não aguentava de sono. Os bastidores também conheci cedo, eu fiz teatro quando criança (teatro de adulto) e dançava balé. Além disso, minha tia (Cristina) era dona de um bar importantíssimo em Brasília nos anos 80 (o Bom Demais), que foi onde inclusive a Cássia Eller começou a cantar... Eu ia muito lá, mesmo ainda criança, e ouvi coisas essencialíssimas.

    Fale sobre sua preparação vocal. Sobre o estudo do canto barroco. E como você fez a ponte entre essa formação e a música popular brasileira.
    Comecei a estudar canto ainda adolescente, sem saber muito pra que poderia servir mas adorava as aulas e a descoberta dos repertórios. Quando entrei na faculdade de música ainda estava meio perdida, sabia que não queria cantar exatamente ópera lírica. Um dia meu pai me deu convites pra ver um cantor barroco (Gerard Lesne, contratenor) e fui assisti-lo. Tive que me afastar do resto do público de tanto que eu chorava e soluçava de emoção. Foi paixão séria!

    E os estudos musicológicos na sua vida?
    Quando a gente estuda música antiga inevitavelmente lemos muitos tratados e textos antigos, no meu caso essa parte dos estudos me interessava realmente muito, especialmente tudo o que dizia respeito à dramaturgia, ao nascimento da ópera. Foi por conta disso que fui estudar musicologia, acabei fazendo uma formação densa e profunda que culminou num duplo doutorado sobre ópera barroca. Minha tese fala das velhas amas de leite cômicas da ópera veneziana do século XVII. Pode parecer um tema estranho mas é um tema divertidíssimo pois são estes personagens (que eram cantados por homens) que faziam exatamente a ligação entre o erudito e o popular, eram personagens que provinham da comedia de rua. Eu digo que estes meus personagens são a presença da praça pública dentro do teatro formal. Acaba sendo uma tese de posicionamento estético e até mesmo político, sabe?
     


    Seu repertório é integrado por clássicos da música brasileira não-óbvios, como o “lado B” de compositores como Cartola, Batatinha, Abel Ferreira e até mesmo Tom Zé. Fale um pouco sobre essa escolha. Seu pai, radialista, tem a ver com isso?
    Acho que minhas escolhas musicais tem uma relação com minhas escolhas de vida, gosto das pérolas perdidas, gosto de me meter onde não fui chamada! Hehehe! O lado B pra mim é quase o lado A. Sou "barroco quebra barraco" (essa definição é do José Miguel Wisnik, que me chama assim). Meu pai é um profundo conhecedor de música boa brasileira, ele me apresenta coisas raras desde pequena mas não é somente ele. Como sou curiosa, as pessoas acabam matando minha sede, gravei canções apresentadas por primas, por tias minhas. O fato é: eu gravo e canto o que me toca o coração, este é meu filtro. Se não me arrepia não posso cantar.

    Você gravou com o cantor africano Ameth Male (também uma música praticamente desconhecida do Gil). Como foi esse encontro?
    Foi mágico. Eu estava indo cantar num festival em Dakar e quis aproveitar para fazer música com alguém de lá. O Mathias Duplessy, um amigo francês e músico também andarilho, me falou do Ameth. Quando nos vimos foi encontro de almas, me senti honrada e emocionada ao lado dele, passamos vários dias juntos, improvisando por horas sem fim. Já cheguei em Dakar com vontade de gravar "La lune de Gorée" por achar a canção forte e por saber que iríamos a Gorée. A ida a Gorée foi especialíssima, chorei por uma hora olhando pro mar na “porta sem retorno”. A gravação com Ameth pra mim valeu por muitos anos de estudos de música. Ele convocou algo de onírico no meu canto, que ainda sinto que sofre com as amarras do clássico. Ameth é muito consciente e politizado e isso também nos uniu fortemente. Enfim, honra, honra, honra.

    E a experiência em gravar o Ensaio, na TV Cultura?
    Foi lindo! O Faro é uma pedra fundamental da nossa música. Tenho a sorte de ter um contato próximo com ele, pois viramos amigos e nos ligamos, cantamos um pro outro pelo telefone, jantamos juntos...O clima no estúdio é muito gostoso, calmo. As pessoas até comentaram “Nossa, Ligiana, você nem parece a leonina que é nesse programa, estava tão calminha!”. hahahaha! É que a energia lá era essa, muito pausada, respeitosa e zen. Gostei muito.

    Projetos futuros próximos?
    Cantar e criar mais e mais. Não abandonei a musicologia; mês que vem sai um livro que traduzi e editei. É um texto maravilhoso do século XVIII sobre ópera e teatro. Estou compondo coisas novas, já tenho vontade de gravar mais. E tenho feito shows. Agora cantarei no Festival de Inverno de Garanhuns e logo depois voo pra Bulgária, pra um festival. Adoraria ter tempo na Bulgária pra fazer mais um belo encontro musical, já pensou? Cantar com aqueles ciganos maravilhosos? Mas acho que não terei tempo dessa vez. Mas em breve teremos coisas novas!




    CLIQUE AQUI para assistir aos demais blocos do Ensaio com Ligiana.

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    comentários

    Terráquiano
    Terráquiano

    Que relax gostosinho !!!