Mapa da música (ou Os tesouros do Gringo)
“Esta música é global. Mas não é world music!”
Oi! A Nova Música Brasileira não é marketing radiofônico, muito menos um festival patrocinado por operadora de telefonia celular. Trata-se da mais nova compilação (de fôlego, diga-se de passagem) editada na Inglaterra por um produtor musical que atende pelo irônico nome de Mais Um Gringo. Este álbum duplo reúne 40 faixas representativas da produção nacional contemporânea, compiladas a partir da ideia do “novo e alternativo” ou ainda do “contracorrente”, sem lançar mão da autorreferência. Ou seja, o Gringo recortou bandas e artistas legitimamente influenciados pela “música ocidental”. Um pouco de etnocentrismo nesse caso não faz mal a ninguém. O álbum vem com bula redigida com conhecimento de causa. Uma introdução alerta que o espírito por trás do projeto é simples: mostrar a “mais emocionante” música brasileira contemporânea. Os artistas e bandas estão localizados em seus estados e têm seus trabalhos contextualizados e referendados. O caprichoso Gringo ainda inseriu um glossário para os termos técnicos: brega, manguebeat, guitarrada, frevo, entre outros gêneros/movimentos brazucas.
Só a antropofagia nos une?
Os artistas que animaram o Gringo são os que incorporam referências do mundo (ou “influências ocidentais”) para criar músicas brasileiras. Leia-se: new wave, electro, dub, indie. Em seu relato, o produtor revela que o Brasil pós-bossa-nova sempre influenciou a música mundo afora. E que agora, com acesso à rede e à tecnologia, os jovens músicos brasileiros estão reequilibrando a equação. “Oi! é o cartão de visita desta geração”, diz.
Em nota de divulgação, o périplo é relatado e aqui resumido: “Após meses de garimpagem, revirando blogs e sites, no final de 2009, o Gringo partiu para o Brasil. Dos (deslumbrantes) cantores-compositores de São Paulo à fertilidade da cena mangue do Recife, passando pelo tecnobrega no coração de Belém, além da cidade rock Goiania, ele não deixou de ouvir um MP3 de uma lista de 40 artistas de 14 estados brasileiros”.

Instantâneos sonoros-cartográficos
A compilação parte da ideia de mapeamento. Cartografias sonoras nacionais foram construídas desde a Missão de Pesquisas Folclóricas (1938), passando pelos Discos Marcus Pereira (década de 1970) e Música do Brasil (final dos anos 1990), para citar apenas três exemplos.
A ideia aparece como tentativa de panorama dos mais diferentes gêneros - o que acaba colocando lado a lado Siba e Gaby Amarantos. Mas a viagem é muitíssimo bem articulada pela sonoridade pura e simples, livre de qualquer preconceito. Aqui, um guia das principais paragens:
[ ] Um disco
O Amapá abre a caixa de surpresas com a Mini Box Lunar, banda de Macapá comparada aos Mutantes e apontada pelo Gringo como um “country funk insano”. O clima segue alternando entre a festa e o lirismo pop. As “cantigas de ninar” que influenciaram Tulipa, de São Paulo, levam à invenção mineira do Graveola e o Lixo Polifônico (surpresa!) que acrescenta nosso repertório com sua “MPB avant-garde”, numa espécie de Tom Zé revisitado em coletivo contemporâneo. Ecos tropicalistas aparecem no trabalho “esquizofrênico” de Diego de Moraes e O Sindicato. São estes goianos que engatam com o também neotropicalista Fernando Catatau, líder da banda cearense Cidadão Instigado e apontado (pela comunidade musical) como um dos principais guitarristas da cena contemporânea nacional. Sua despretensão vocal dialoga com os já conhecidos pernambucanos Mombojó, China e Eddie.
O mapeamento sonoro continua com a Bahia nada característica de Lucas Santtana, que canta em inglês sua “balada sensual”. Desenvolve com o gene pós-punk da banda de Uberlândia Porcas Borboletas. Mistura (em alto e bom som) forró com heavy-punk com o naurÊa, de Aracajú. E ainda traz faixas instrumentais que pontuam a viagem: La Pupuña, um “Amazonian Dick Dale”, como diz o Gringo, que mistura guitarrada com rock, merengue e surf music; e o “monstro tropical psicodélico” Burro Morto, da Paraíba.
No fim da primeira etapa, a conexão roots de Siba e Roberto Corrêa (Recife-Brasília) resume o clima do álbum numa canção metalinguística, em que o poeta passa a noite procurando a rima exata. De fato, o disco 1 se encerra com os “angustiosos” vocais de Otto que nos deixam suspensos no ar.

[ ] Dois Disco
É mais “encorpado” ou um “lado B” da eletrônica pra dançar. Também vale a ordenação evolutiva: abre pianinho com os vocais de Céu em participação com o 3namassa numa emblemática faixa intitulada “Doce guia”. A viagem engata com Catarina Dee Jah, de Olinda, (a “M.I.A. brasileira”) que faz um peculiar “balkan-tecnobrega”. O baile de fato começou. Chega ao Rio Grande do Sul e bate-volta a Belém do Pará, cidade-chave pra entender nossa música eletrônica de hoje (o Pará discretamente conquista o espaço que já foi ocupado pelo funk carioca). Enfim, os paraenses: Maderito & Joe (que têm a missão de invadir o planeta com seu eletromelody, segundo apuração do Gringo), Pio Lobato, um dos maiores guitarristas/programadores da linhagem da floresta, e a rainha do tecnobrega Gaby Amarantos, apontada como a Cyndi Lauper tropical ou a Beyoncé da Amazônia. A participação paraense termina em alto estilo com a muitíssimo bem resolvida faixa “cross-generational” do Coletivo Rádio Cipó com Dona Onete.
Do Rio, Os Ritmistas (Domênico, Danny Roland e Stephane San Juan) fazem “crasy samba” e atestam que o ritmo continua em franca evolução na Cidade Maravilhosa. O Rio também mantém ecos do Pará com a banda Do Amor e Mestre Curica (em remix de Lucio K). O funk carioca ganha “neo” versão no Rio Grande do Sul (!) pelas mãos do Chernobyl&Praga.
A surpresa vocal da balada fica por conta de Flora Matos, a MC de Brasília que se apresenta ao lado da Stereodubs. O “hip hop afro-punk psicodélico” de M. Takara & R. Brandão (SP) se revela tecnicamente muito apurado, assim como a produção de Buguinha Dub para a Guardaloop, do Recife, banda que poderia estar baseada em Kingston ou Londres. Com os pernambucanos, as luzes da pista já estão desaparecendo para a derradeira alvorada chamada Júlia Says, música livre do duo recifense formado por Anthony Diego e Pauliño.
A capa é obra de Derlon Almeida, pernambucano cujo trabalho dialoga com a arte popular e a arte de rua (os lambe-lambes foram produzidos via Choque Cultural e uma tiragem numerada e assinada pelo artista está disponível na galeria). A obra foi adaptada ao CD pelo artista gráfico inglês Swifty, autor do mapa da contracapa.
Oi! A Nova Música Brasileira! teve lançamento na Inglaterra no último mês de setembro pela Mais Um Discos e já foi adotado pela BBC Radio. No Brasil, tem previsão de lançamento em 2011. Por enquanto, o álbum pode ser comprado/baixado na loja virtual da Nokia brasileira. Uma amostra com quatro faixas está disponível gratuitamente no blog do Gringo/site da gravadora.
A excelência de uma compilação feita por gringos está nos critérios de seleção estritamente musicais, fruto de ouvidos abertos, livres de qualquer pré-concepção. Oi! diz respeito a mais um radar estrangeiro captando vibrações do Brasil, esmiuçando, catalogando, enquadrando. À moda dos antigos viajantes oitocentistas, atentos a tudo e a todos os sons.
Ao encerrar esta viagem “instantânea” proposta por Mais Um Gringo, chegamos atônitos a uma afirmativa: o Brasil parece estar bem longe daqui.
comente
- play
- pause
- stop
- min volume
- max volume
- previous
- next