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  • O jovem cantor e compositor Arthur Nogueira que, com sua música, arrancou elogios do poeta Antonio Cicero. Jaime Souzza - Gil Yonezawa

    Arthur Nogueira além da fronteira do lúcido

    Julio de Paula | 03.09.2010

    A experiência musical paraense comprova que o Caribe não é longe daqui. Mas não podemos nos esquecer de que a nação que nos revelou o carimbó, as guitarradas e o tecnobrega também é a terra dos pássaros, as operetas populares de lindas melodias e contenção vocal infantil. Do mesmo Pará de Waldemar Henrique vem Arthur Nogueira, compositor e intérprete da nova geração que nos apresenta seu álbum Mundano.

    Ele nasceu em Belém (1988) e cresceu em meio aos vinis da família. Seu pai promovia reuniões entre amigos para ouvir música noite adentro. “Discutiam canções, contavam histórias, diziam poesia. Aquilo sempre mexeu comigo”, lembra Arthur em conversa via facebook. Numa dessas ocasiões, começou a cantar. A estreia profissional se deu aos 15 anos, na noite de Belém. “Por ser menor de idade, meus pais iam sempre aos shows. Esse incentivo foi determinante”, diz. Aos 17, grava um CD com canções de compositores locais. Mas considera Mundano seu primeiro trabalho como autor.

    Seu timbre é aveludado pelo sotaque pouco habitual pra gente do sul. Uma corda sensível prolonga as palavras ou alcança o canto-falado. Intérprete de ouvidos atentos, tem a voz bem colocada em sua contenção. Em lucidez flutuante, Arthur Nogueira canta sua música e toca numa camada mais sensível que a pele.


    Letras de luz e mistério

    “As canções de que se compõe o brilhante álbum Mundano servem a Arthur para interpretar a luz e o mistério que percebe – e que o fascinam – no mundo em que vive”, diz o poeta Antonio Cicero em texto de apresentação de Mundano.

    “Compor pra mim é uma atividade solitária. Tenho uma ligação forte com poesia, então tudo começa na palavra. Geralmente pego um texto de alguém e ponho música ou envio algo que escrevi para ser musicado. '03h05' foi uma canção composta via e-mail, por exemplo. Meus parceiros nesse CD são autores paraenses importantes, como o Vital Lima e a Maria Lidia, e representantes da nova geração, como o Renato Torres e o Leandro Dias. Tem também duas músicas que fiz com o Marcelo Ribeiro, um jovem poeta carioca. Li o blog dele, fiquei louco e me apropriei de dois textos”, esclarece Arthur.




    “Na época, estava lendo Foucault e tem um excerto onde ele afirma que as canções brotam sob seus próprios desígnios. Adoro pensar dessa maneira. Acredito que o autor é como uma ferramenta, a partir da qual a música ganha o mundo.” Arthur Nogueira ganha o mundo a partir de seu universo particular. “O termo Mundano também tem a ver com gozo material, prazer, sexo. O disco fala sobre essas coisas, do ponto de vista da idealização. É o tal Pierrot apaixonado, que vive só cantando, à espera do amor da Colombina. Mas ela está no bar, provando sabores do mundo”, descreve.

    Arthur concebeu, esboçou o álbum e chamou profissionais que admira para “tirá-lo do papel”. Selecionado em 2008 pelo Projeto Pixinguinha, gravou o disco no ano seguinte e fez itinerância pelo próprio Pará.

    Além de suas composições e parcerias, o álbum traz "Sei lá", de Felipe Cordeiro, nome da nova música do Pará, "Mal secreto", de Macalé e Waly Salomão, aqui atualizada pela leitura de Arthur. E, ainda, "$ cara", de Marina Lima e Antonio Cicero. “Conheci o Antonio Cicero em Belém, num evento literário, e Marina entrou em contato com o meu trabalho por intermédio dele. Em seguida, fui ao Rio e conversamos sobre o CD, os três. Sempre quis algo deles no repertório. Tinha um monte de possibilidades, mas no final das contas '$ Cara' caiu como luva. O Cicero trouxe uma gama de coisas boas para minha vida, inclusive uma parceria, chamada 'Onda', que permanece inédita”, conta.

    Claro assunto no breu

    O álbum trata de um tempo outro, quando o ponteiro do relógio gira devagar, sem pressa. Compasso de espera ou rito de passagem? Poesia portuária? O objetivo das canções é revelado já nos títulos: “Deixa”, “Sei lá”, “Convite”, “Pretexto”, “Gratuito”. E o álbum se aprofunda faixa a faixa. Ou se adensa em poesia e interpretação: “Eis-me aqui, atado a mim”.

    "Mundano tem muito de mim. As canções registram um momento turbulento, de mudanças, inquietação, desilusões amorosas. A Marina diz que compõe para eternizar momentos e eu acho que o Mundano tem disso, porque marca uma fase difícil, porém proveitosa no aspecto musical. Descobri que podia compor e fiquei encantado. Foi o claro assunto no breu”.

    Mundano é itinerário íntimo. Voz confidente de amigo que diz sobre amor e sentimentos mutantes. Álbum de luz outonal. Pra escutar no fone de ouvido. No crepúsculo paraense ou na névoa da grande cidade.

    Mundano
    (2009) ainda não cruzou as fronteiras do Pará.

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