Tem fiscal na quadrilha
Foi um temporal. Batendo o pé, a coordenadora de ensino percorreu o longo corredor do colégio e quase pôs abaixo a porta da secretaria, não tirando do sério a Madre Superiora envolvida em papéis.
- O que foi irmã?
- O fiscal está lá no pátio!
Quem me contou a história foi a Lourdes, professora de Educação Artística que mora no meu prédio. Como ela é meio exagerada, só fiquei de ouvido.
- Weber, você não sabe a cara da religiosa quando ouviu a palavra “fiscal”! A Madre, que dá aula de Religião e cuida da administração da escola, sapecou alvarás, comprovantes, habite-se e outras licenças mais e voou pelo mesmo corredor provocando um movimento tão grande em sua batina, que a coordenadora achou por bem ficar a quatro passos de distância daquela que tinha como sua mais sagrada virtude, a ponderação.
E a Lourdes continuou explicando e foi além...
- Desceu os degraus como enxurrada em dia de temporal. Seus olhos estavam vidrados nos comprovantes pra mostrar ao tal fiscal. Ela não respirava. O ar de ponderada, escafedeu-se. Quando chegou lá no pátio, foi logo dizendo sem se importar com o balanço da batina:
- Está tudo aqui, carimbo, licença, contrato, permissão, juízo... Eu te conheço?
- Armando Bonilha. Prazer, Madre. Meu crachá.
Vou simplificar a história, porque o lero-lero da Lourdes nem tatu aguenta. Armando Bonilha era fiscal de direito de autoral. Soube, não sei por quem, que a escola organizava uma festa junina e estava lá para defender interesses artísticos dos que animam a festa: os compositores.
- Mas então pra que a trena?
Fiquei tão curioso, quanto a Madre. Pra que a trena? Aliás, a Lourdes me disse que o tal fiscal, o Armando Bonilha, tinha uma tão grande, que mais parecia a de agrimensor de companhia de estrada de rodagem.
- A trena é pra medir o pátio onde será a festa. Só isso.
E o Armando Bonilha mediu tudo. Tudo mesmo. Até os degraus da escada e de um pequeno palco, lugar de apresentação de teatro de bonecos, que por sinal não seria usado no dia. Ele mostrou o resultado da medição para a Madre. O da área total do pátio e o do boleto que deveria ser pago no banco em nome dos compositores.
Foi aí então que a Madre entendeu o significado desse Pai Nosso. Quanto maior a área, mais gente. Quanto mais gente, maior o boleto. Certo? Claro que sim.
A Lourdes me disse que o boleto não era assim uma fortuna e que a Madre sempre seguiu as normas religiosas e fiscais. Ela, até então, nunca tinha imaginado que, para fazer uma festinha junina de colégio em nome da cultura brasileira, teria que pagar! Pois é. Ao menos, era para o bem dos compositores, pensou a Madre.
Mas a Lourdes me falou que a Madre tentou um descontinho em nome de Deus. Disse para o Armando Bonilha que era uma festinha simples, que a música era de um disco, disco que ela mesma tinha comprado com seu próprio dinheiro.
Ao ouvir tal justificativa, o Bonilha se apressou. Pegou o boleto, rasgou e foi dizendo:
- Então a música da festa é de disco?
- É sim
- Já que não tem músico tocando, além do direito do compositor, tem também o direito do intérprete. Vai ficar um pouquinho mais caro.
A Lourdes me disse que a Madre ficou muda. Disse também que a Madre achou justo pagar o boleto em nome de compositores e agora dos intérpretes e que iria rezar um terço para que os tais direitos chegassem ao bolso dos compositores e intérpretes da festinha junina.
Depois de dar a benção para o Armando Bonilha e se despedir, voltou com mais um papel até a sua sala e não se deu por rogada.
E porque eu estou contanto essa história?
Acontece que a Lourdes, como professora de Educação Artística, teve a incumbência de ensaiar a quadrilha, sob a supervisão da Madre, agora mais ligada na festa do que antes. E a Lourdes ficou tão feliz como resultado do ensaio, que me vendeu uns convites para a tal festinha junina. E lá fui eu.
Comi pipoca, tomei vinho quente e arrisquei alguma coisa na barraca da pescaria. Vi por lá o Armando Bonilha comendo um churrasquinho. A Lourdes me disse que ele foi convidado. Isso eu não sei.
E chegou o grande momento da festa: a quadrilha. Foi uma quadrilha como tantas outras. Com erros e acertos. Com a graça de uns e a timidez de outros. E algumas improvisações. Mas o que me chamou a atenção foi a cara do Armando Bonilha quando Lourdes gritou:
- Olha a coooobrrrraaaa...
E todos responderam olhando para o convidado, o Armando Bonilha que nessa hora estava tomando um quentão.
- Ih! Cadê?
O Armando Bonilha ficou meio desconfiado, e tragou mais um gole.
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Sou da cidade. Sempre morei em São Paulo e festa junina que se preste tem dente pintado, chapéu de palha em frangalhos e roupa remendada pra quem dança a quadrilha, com ou sem boleto.
Em 1998 entrevistei Inezita Barroso para o documentário Noites de junho, sobre as tradições juninas na cidade. Fiquei surpreso quando ela revelou que essa história de colocar remendo na roupa pra dançar quadrilha é uma distorção. Na roça a história é bem diferente. O camponês vai muito bem vestido para as festas dos santos de junho e que esse negócio de se fantasiar de caipira mal vestido é puro preconceito, que perdura até hoje, até mesmo nas escolas bem intencionadas.
Vale ouvir o que disse Inezita Barroso sobre a origem da quadrilha, suas modificações ao longo dos anos e lembrar a dança com marcação da própria cantora, ao som da sanfona de Mário Zan, pois quando o assunto é cultura popular, com Inezita Barroso não tem deslize. Como se dizia antigamente: ela mata a cobra e mostra o pau.
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1) Trecho documentário Noites de junho
Com depoimento de Inezita Barroso
Rádio Cultura Brasil, 1998
- Inezita Barroso fala sobre quadrilha no doc Noites de junho
2) “Quadrilha verdadeira n. 1” (Mário Zan)
Tocada por Mário Zan
Marcada por Inezita Barroso
Som Livre, 1991
- Quadrilha verdadeira n. 1 - Mário Zan e Inezita Barroso
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